Cerca de 45 milhões de usuários de internet com 16 anos ou mais no Brasil, o equivalente a 32% do total, relataram ter enfrentado tentativas de golpe envolvendo o uso de seus dados pessoais. Além disso, 20% das pessoas afirmaram que foram vítimas efetivas desses crimes. Os números inéditos fazem parte da terceira edição da pesquisa ‘Privacidade e proteção de dados pessoais: perspectivas de indivíduos, empresas e organizações públicas no Brasil’, apresentada nesta segunda-feira (31), durante o 17° Seminário de Proteção à Privacidade e aos Dados Pessoais, realizado no Centro de Convenções Rebouças, em São Paulo. O estudo foi conduzido pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), entidade ligada ao Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br).
A pesquisa, de abrangência nacional, tem como público-alvo usuários de internet com idade a partir de 16 anos. O objetivo foi avaliar a percepção dos indivíduos sobre privacidade, práticas adotadas, riscos percebidos e o uso de informações pessoais por terceiros. Realizada em dezembro de 2025, a pesquisa contou com 2,5 mil entrevistas online (CAWI). De acordo com Winston Oyadomari, um dos coordenadores do estudo, essa é a primeira vez que o Cetic.br aborda especificamente a identificação de tentativas de golpe e relatos de vitimização. “Esse é até um tema difícil, porque as pessoas ficam constrangidas e abaladas com as tentativas de golpe, então, não é um tema simples para a pesquisa abordar”, afirmou ele à Agência Brasil.
As tentativas de golpe são realizadas por diversas vias de comunicação, sendo os aplicativos de mensagem os principais responsáveis (84% dos casos). Outras formas incluem ligações telefônicas (79%), sites ou aplicativos falsos (71%), SMS (71%), e-mails (69%) e redes sociais (67%). “Mesmo as pessoas que não estão usando ou não têm o hábito de usar a internet, ou mesmo não têm habilidades com a tecnologia, elas também postam e estão sujeitas a este tipo de tentativa de golpe”, destacou Oyadomari. Ele também chamou a atenção para os golpes envolvendo sites ou aplicativos falsos: “A gente identificou que as pessoas que usam apenas o celular reportam mais tentativas de golpes por sites ou aplicativos falsos do que as pessoas que também usam computador. Pode existir aí uma limitação ou dificuldade que o próprio dispositivo de acesso proporciona, uma maior vulnerabilidade”, explicou.
As tentativas de golpe frequentemente geram impactos emocionais nos usuários. Segundo Oyadomari, a maioria dos entrevistados relatou episódios de estresse ou mal-estar decorrentes dessas situações. “Isso afetou emocionalmente a pessoa e seus familiares”, complementou. Os golpistas não se limitam ao roubo de dinheiro ou informações bancárias; ações como perda de acesso a contas também foram citadas. Um exemplo incluído é o caso do Gov.br, onde criminosos podem impedir o acesso a serviços públicos essenciais ao tomarem o controle do e-mail cadastrado. “Essa questão do roubo de acesso é também um fenômeno de preocupação, não só o prejuízo financeiro. Pode tirar do cidadão o acesso a serviços fundamentais, de governo, de assistência ou de políticas públicas”, alertou Oyadomari.
O nível de escolaridade demonstrou ser um fator relevante na ocorrência dos golpes. Usuários com níveis mais baixos de instrução relataram as situações de fraude de forma mais frequente. “A gente está dizendo basicamente que as pessoas menos escolarizadas estão tão sujeitas aos golpes quanto às demais. No entanto, entre as menos escolarizadas, o estrago é maior”, ressaltou. Ele acrescentou que é necessário discutir tanto a proteção de dados quanto as habilidades digitais: “Essas duas coisas têm que andar juntas. Não adianta promover só uma cultura de proteção de dados, sem levar em consideração que uma parte importante das pessoas precisa desenvolver as habilidades digitais em busca de um ambiente digital seguro”, afirmou.
Em uma análise inédita sobre o uso de ferramentas de inteligência artificial (IA) generativa no Brasil, sob a perspectiva da privacidade, o estudo revelou que a utilização dessas tecnologias para fins profissionais ou acadêmicos é a mais comum (73%). Outros usos incluem preferências pessoais, como filmes ou músicas (58%), sentimentos e emoções (54%), dados de saúde, como sintomas e exames (52%), e fotos (50%). As categorias menos citadas foram finanças pessoais, como orçamentos e investimentos (41%), e dados pessoais, como nome, endereço, data de nascimento ou CPF (37%). Ainda assim, 66% dos usuários de IA generativa demonstraram preocupação com a utilização de seus dados pessoais pelas tecnologias, sendo o número ainda maior entre usuários com maior nível educacional (72%).
“Não é porque as pessoas utilizam a ferramenta que elas não estejam preocupadas, e não é porque estão preocupadas que vão deixar de utilizar. O uso e a preocupação andam de mãos dadas. Você utiliza a ferramenta porque ela traz benefícios, mas também tem preocupação por não existir uma transparência de como esses dados são utilizados”, explicou Oyadomari. Ele também abordou a questão do compartilhamento de dados de saúde nas plataformas de IA. “Dados de saúde, tradicionalmente, são tidos como dados pessoais sensíveis. Existe toda uma preocupação de como são armazenados e sobre quem pode ter acesso ao seu prontuário médico. Isso é um tema de bastante preocupação no campo da proteção de dados e as pessoas”, concluiu.







