A Secretaria de Estado da Saúde do Paraná (Sesa) viabilizou o encaminhamento da primeira paciente do estado a receber um coração artificial pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Andressa Fátima Reinaldi Banach, de 38 anos, moradora de São José dos Pinhais, foi submetida à cirurgia de implantação do dispositivo de assistência ventricular HeartMate 3 no dia 12 de maio, no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. Após permanecer internada até o dia 20 do mesmo mês, ela foi transferida ao Paraná, via UTI aérea, e internada no Hospital do Rocio, em Campo Largo. Após dez dias de acompanhamento pós-operatório, Andressa recebeu alta em 29 de maio.
Andressa sofria de insuficiência cardíaca grave causada por dilatação progressiva do ventrículo esquerdo, que havia perdido a capacidade de bombear sangue. Por conta de alto grau de sensibilização imunológica devido a gestações anteriores e incompatibilidade com 99% dos potenciais doadores, ela não era apta para o transplante tradicional de coração, sendo o implante do dispositivo a única alternativa terapêutica possível. “A cirurgia foi um completo êxito e ela continuará o acompanhamento por tempo indeterminado. É uma articulação feita pela Sesa para um tratamento de ponta e totalmente pelo SUS”, destacou César Neves, secretário de Estado da Saúde. Neves ressaltou ainda que o caso representa um marco para a saúde pública no estado.
A insuficiência cardíaca afeta cerca de 2 milhões de pessoas no Brasil, com registro de 240 mil novos casos por ano. A condição é a maior causa de internações cardiovasculares no SUS, com quase 2 milhões de hospitalizações entre 2015 e 2024, de acordo com os Arquivos Brasileiros de Cardiologia. Andressa começou o tratamento em agosto de 2024, no Hospital Angelina Caron, em Campina Grande do Sul, após complicações durante a gestação de seu quinto filho. Após o parto, sua saúde deteriorou rapidamente. “Fiquei 14 dias na UTI, fui para casa, mas não conseguia pegar ele no colo, não conseguia fazer nada. Era meu esposo que me ajudava, que me carregava”, relembrou Andressa.
Devido à gravidade de seu quadro, a paciente foi transferida ao Hospital do Rocio, em Campo Largo, em fevereiro de 2025, para acompanhamento especializado. Lá, uma equipe médica liderada por Aline Möckel, coordenadora da Secretaria de Transplantes do hospital, identificou a inviabilidade de um transplante por incompatibilidade imunológica. “Descobrimos que ela tinha um painel imunológico de 99%, o que é contraindicação total para o transplante. Se fizéssemos o transplante, haveria rejeição imediata”, explicou Möckel. A cardiologista Aline Carbonera complementou que, diante do quadro refratário da doença e da ausência de resposta às medicações, cogitou-se a utilização do HeartMate 3 como uma alternativa avançada.
O dispositivo HeartMate 3 é voltado para pacientes com insuficiência cardíaca em estágio terminal e atua como uma bomba que substitui a função do ventrículo esquerdo comprometido. Desenvolvido com tecnologia de levitação magnética, o dispositivo minimiza o atrito e os riscos de formação de coágulos. Ele é alimentado por bateria portátil para atividades cotidianas ou por fonte fixa durante o repouso. Antes da inserção do equipamento, a equipe do Hospital do Rocio passou por um treinamento intensivo para lidar com o manejo do dispositivo. Segundo o diretor-técnico do hospital, Kengi Itinose, a instituição já realizava transplantes cardíacos desde 2015, mas o uso do dispositivo exigiu adaptação. “É algo inédito no Paraná, e existe um plano para nos tornarmos referência nesse tipo de procedimento”, afirmou Itinose.
Após a cirurgia, Andressa foi acompanhada de perto pela equipe médica durante o pós-operatório. Será necessário acompanhamento rigoroso pelo restante de sua vida para evitar problemas como formação de trombos no dispositivo e monitorar o funcionamento de outros órgãos. “A expectativa é que eu possa fazer tudo o que fazia antes da doença, cuidar dos meus filhos, levar uma vida normal. Vocês devolveram uma mãe para cinco filhos”, disse Andressa, emocionada.
A cirurgia foi custeada por meio do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do SUS (Proadi-SUS), que permite que hospitais filantrópicos revertam isenções fiscais em atendimentos e tecnologias para a rede pública. Além disso, a Sesa contribuiu com a articulação entre hospitais especializados, a logística de transporte em UTI aérea e garantirá o acompanhamento clínico contínuo de Andressa pelo SUS. Incorporado ao SUS em dezembro de 2024, após recomendação da Conitec, o implante do dispositivo HeartMate 3 será uma opção terapêutica para pacientes que não podem ser submetidos ao transplante tradicional.
Graças ao procedimento, Andressa já demonstra sinais de recuperação e celebra a oportunidade de retomar a convivência familiar com maior autonomia. Segundo seu marido, Alisson da Silva Ferreira, o momento é de recomeço: “É para ela voltar a ter autonomia, levar as crianças para a escola. É um recomeço”. Sua irmã, Natally Banach, falou sobre a importância da cirurgia. “É muito gratificante saber que ela conseguiu toda essa ajuda. Ela agora vai poder cuidar do bebê dela. Não temos palavras para agradecer a todos os envolvidos.”









