Jornalista, escritor e radialista, Victor Grein Neto transformou em histórias as cidades por onde passou, os afetos que cultivou e a paixão pela comunicação que o acompanhou por toda a vida. Entre seus maiores orgulhos estava a criação do apelido “Tubarão” para o Londrina Esporte Clube
Por Gabriela Siqueira
Há pessoas que passam a vida colecionando lembranças. Outras se dedicam a transformá-las em histórias, compartilhá-las e garantir que permaneçam vivas. Victor Grein Neto pertenceu a essa segunda categoria.
Jornalista, professor, publicitário, radialista e escritor, Victor nasceu em Ponta Grossa, em 8 de maio de 1945. Era filho de Victor Grein Filho e de Arlete Zelenski, descendentes de famílias de origem principalmente alemã, luxemburguesa e russa. Foi o mais velho de seis irmãos – depois dele vieram Valmir, Valter, Vera, Vivian e Vidal – e cresceu em um ambiente marcado pelas constantes mudanças. O pai, gerente de banco, era frequentemente transferido de cidade. Por anos, a família percorreu diferentes regiões do Paraná.
A infância e a juventude ficaram espalhadas por cidades que ele recordava com carinho. Palmeira tornou-se cenário de inúmeras histórias da adolescência. Londrina conquistou um lugar especial em sua memória e em seu coração. Ponta Grossa seria, mais tarde, o local onde daria início à sua própria família. Ainda menino, passava férias em Ribeirão Bonito, no município de Teixeira Soares, na fazenda do avô, ambiente que ajudou a moldar seu olhar nostálgico sobre o tempo, a família e as relações humanas.
Concluir os estudos exigiu um primeiro gesto de independência. Mudou-se para Curitiba para viver com os avós e terminar o ensino médio no Colégio Estadual do Paraná. O gosto pela escrita, porém, se manifestava muito antes disso. Ainda criança, criou um pequeno jornal chamado A Batalha, do qual produziu duas únicas edições: uma destinada à avó e outra ao avô. Na adolescência, colaborava com o jornal da União dos Estudantes. Escrevia textos e buscava anunciantes no comércio local para viabilizar a impressão. Também era responsável, uma vez por mês, pela escolha dos filmes exibidos no Cine Teatro, de Palmeira. Fazia a ponte entre a capital e a cidade do interior carregando latas com os rolos que seriam a próxima atração do espaço.
Formou-se em Letras pela Universidade Estadual de Ponta Grossa, em 1969. Deu aulas de Língua Portuguesa e Literatura, mas foi na comunicação que encontrou sua vocação definitiva.
Trabalhou nas sucursais do jornal O Estado do Paraná em Ponta Grossa e Apucarana. Em Londrina, estruturou uma representação do periódico responsável por publicidade, assinaturas, reportagens e distribuição. Apaixonado pelo time da cidade, o homônimo Londrina, criou o apelido Tubarão, que foi adotado pelo clube e perpetuado por gerações de torcedores.

Em Curitiba, comandou durante muitos anos a agência de publicidade GB, especializada na comercialização de anúncios do Estado do Paraná. Também atuou como correspondente da Folha de São Paulo, trabalhou na redação da Tribuna Catarinense, foi colaborador do União Metropolitana e passou pelo rádio – narrou partidas de futebol e apresentou um programa esportivo na Rádio Guairacá.
Desde 2012, dedicava-se à produção da revista Distinção, publicação voltada ao empreendedorismo e aos acontecimentos empresariais do Paraná e de Santa Catarina. Ele mesmo escrevia reportagens, prospectava anunciantes, fazia contatos comerciais e acompanhava a circulação das edições. A edição mais recente chegou às mãos dos leitores em maio deste ano. Mesmo com a saúde fragilizada, a disposição para imaginar novos projetos permanecia. Nas últimas semanas, entre idas e vindas do hospital, planejava a próxima edição. Em uma mensagem enviada à filha, pouco depois do lançamento do número 109, deixou registrada uma dúvida rara em alguém tão otimista: “Será que é a última?”
Escrever parecia ser uma necessidade íntima dele. Publicou dois livros, Londres Londrina e Sob o Sol de Palmeira, nos quais registrou lembranças, histórias fictícias e reflexões sobre a passagem do tempo. Em um trecho da obra dedicada à cidade de Palmeira, escreveu: “Sabemos que a vida é um extenso rosário com alegrias, tristezas, conquistas, derrotas, mágoas, desilusões, vitórias, cabendo aí todos os adjetivos existentes”. Em outra parte, sintetizou uma filosofia pessoal que parece resumir a forma como escolheu viver: “Na realidade, com o passar dos anos, a gente percebe claramente que a felicidade não precisa ser procurada como uma joia preciosa. Ela vem sem ser preciso esticar muito os braços para alcançá-la, pois as miudezas do dia a dia, as pequenas coisas, os gestos mais simples, é que são capazes de aquecer o nosso coração”.
Talvez por isso fosse lembrado como um homem profundamente ligado aos afetos. Foi casado com Aglair, mãe de seus três filhos: Elisa, Paulo Victor e Luciano. Após o divórcio, mudou-se para Balneário Camboriú. A distância não enfraqueceu os vínculos familiares. As viagens ao Paraná permaneceram frequentes, divididas entre compromissos profissionais e encontros com a família.
Mesmo com o avanço da idade, conservava a disposição para percorrer longos trechos de estrada, de rodoviária em rodoviária. Como o pai, nunca se sentiu à vontade ao volante. Chegou a tirar carteira de habilitação e, anos mais tarde, refez a autoescola, mas dirigir continuou sendo um desafio que preferia evitar. Viajava de ônibus com naturalidade, transformando o trajeto em parte da rotina que manteve até os últimos anos.
Foi em Santa Catarina que conheceu Carmen Lúcia, com quem compartilhou mais de duas décadas de vida. Com ela, ganhou também uma segunda família. A nova configuração foi resumida pelo próprio Victor em um de seus livros: “Tanto ela como eu tínhamos três filhos e, com a união, ficamos com seis”.
Victor gostava de praia, embora só tenha conhecido o mar aos 18 anos, em uma viagem a Guaratuba. Ao longo da vida, realizou o desejo de ter, por alguns anos, uma casa em Itapema (SC) e uma chácara em Campina Grande do Sul, na Região Metropolitana de Curitiba, lugares que guardou entre as boas lembranças de diferentes fases da vida.
Era avô de diferentes gerações: a mais velha das netas tem 38 anos, enquanto os caçulas acabaram de completar dez. Entre netos paranaenses e catarinenses, deixa Gabriela, Ramon, Pietra, Maria Paula, Rafael, Eduarda, Heloísa, Luiza, Felipe, Benjamin e os gêmeos Luiza e Miguel, além das bisnetas Valentina e Carolina, de 12 e nove anos. Para muitos deles, permanecerão as lembranças do avô disposto a se sentar no chão para brincar, inventar histórias, distribuir presentes e transformar encontros familiares em momentos de descontração.
Será lembrado pela presença, pelas histórias, pelos planos e pelas piadas oportunas, além das longas conversas e reflexões sobre futebol, jornalismo, política, cinema e literatura. Gostava de compartilhar lembranças de um tempo em que os jornais chegavam às bancas cheirando a tinta fresca e os filmes eram exibidos em projetores de película.
Morreu na última segunda-feira, 15 de junho de 2026, aos 81 anos, em Itajaí (SC), em decorrência de complicações provocadas por um câncer contra o qual lutava desde 2022. O melanoma, inicialmente diagnosticado na pele, o levou a tratamentos em Curitiba, Joinville e, nos últimos meses, a cuidados paliativos em Itajaí. Mesmo diante dos prognósticos mais difíceis, manteve intactas características que o acompanharam por toda a vida: o entusiasmo, o humor, a curiosidade e a capacidade de imaginar novos projetos.
Victor Grein Neto viveu como escreveu: acreditando que a felicidade se esconde nos gestos simples, nas conversas demoradas, nas palavras bem escolhidas e na capacidade de continuar fazendo planos, mesmo quando a vida parece pedir silêncio. Partiu deixando uma extensa coleção de textos, fotografias, amizades e memórias, mas, sobretudo, a lembrança de alguém que nunca deixou de acreditar que sempre havia uma próxima história a ser contada.









