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12 de agosto: um ano da explosão na Enaex que marcou Quatro Barras

Era uma manhã de trabalho como tantas outras em Quatro Barras. Pouco antes das 6 horas de 12 de agosto de 2025, porém, uma explosão de grandes proporções atingiu uma das áreas da Enaex Brasil. Em poucos segundos, a rotina se transformou em uma das maiores tragédias da história recente do município.

A força da explosão provocou uma enorme coluna de fumaça, que pôde ser vista a quilômetros de distância e chamou a atenção de moradores de Quatro Barras e de cidades vizinhas.

Uma enorme coluna de fumaça se ergueu sobre a área da Enaex após a explosão e pôde ser vista a quilômetros de distância, inclusive em cidades vizinhas
Uma enorme coluna de fumaça se ergueu sobre a área da Enaex após a explosão e pôde ser vista a quilômetros de distância, inclusive em cidades vizinhas. Foto: Reprodução redes sociais

Nove trabalhadores morreram e outras sete pessoas ficaram feridas. A estrutura atingida foi completamente destruída, e a força da explosão também provocou danos em imóveis do entorno. Um ano depois, a investigação criminal foi concluída, mas as consequências da tragédia ainda estão longe de terminar.

A pergunta sobre o que aconteceu naquela manhã passou por meses de perícias, depoimentos e análises técnicas. O inquérito terminou sem indiciamentos, mas apontou indicativos de falhas sistêmicas na gestão de riscos. Paralelamente, a discussão sobre responsabilidades e indenizações chegou à Justiça.

Área da Enaex atingida pela explosão ficou marcada pela destruição e pelos destroços provocados pela tragédia
Área da Enaex atingida pela explosão ficou marcada pela destruição e pelos destroços provocados pela tragédia. Foto: Colaboração / Corpo de Bombeiros do Paraná

Nove histórias interrompidas

As vítimas foram Camila de Almeida Pinheiro, Cleberson Arruda Correa, Eduardo Silveira de Paula, Francieli Gonçalves de Oliveira, Jessica Aparecida Alves Pires, Marcio Nascimento de Andrade, Pablo Correa dos Santos, Roberto dos Santos Kuhnen e Simeão Pires Machado.

Os nove trabalhadores que tiveram suas vidas interrompidas na manhã de 12 de agosto de 2025
Os nove trabalhadores que tiveram suas vidas interrompidas na manhã de 12 de agosto de 2025. Fotos: Reprodução redes sociais

A destruição provocada pela explosão tornou a identificação dos corpos um trabalho complexo. As equipes da Polícia Científica recolheram mais de 300 fragmentos corporais no local, entre cabelos, micropele e outros vestígios.

O material foi submetido a exames genéticos e papiloscópicos para auxiliar na identificação das vítimas. Ao todo, a perícia encontrou cerca de mil vestígios na área atingida, em um trabalho que se estendeu por dias e envolveu diferentes áreas técnicas.

Enquanto os peritos trabalhavam entre os escombros, familiares aguardavam pela confirmação da identidade dos trabalhadores.

Equipes de perícia e resgate trabalharam entre os escombros da unidade da Enaex em busca de vestígios e dos restos mortais das vítimas
Equipes de perícia e resgate trabalharam entre os escombros da unidade da Enaex em busca de vestígios e dos restos mortais das vítimas. Foto: Colaboração / Corpo de Bombeiros do Paraná

A investigação entre os escombros

A Polícia Civil iniciou a apuração ainda nos primeiros momentos após a tragédia, sob comando da delegada Gessica Andrade. O trabalho reuniu depoimentos de funcionários, documentos técnicos, imagens, mensagens e e-mails corporativos, além da análise dos laudos produzidos pela Polícia Científica.

Segundo a delegada, a investigação encontrou indícios de manutenções paliativas, equipamentos antigos e sinais de corrosão. Relatos de trabalhadores e documentos internos também apontaram problemas recorrentes que, segundo a apuração, eram tratados de maneira improvisada.

Em entrevista, Gessica descreveu o cenário como um “processo de trabalho que beira o rudimentar”, marcado pela forte dependência da ação humana e por ajustes improvisados. Ela também relatou que determinadas manutenções eram realizadas durante o expediente e de maneira paliativa.

Meses depois, após a conclusão do inquérito, a delegada foi transferida para outra delegacia.

A delegada Gessica Andrade, responsável pela investigação da Polícia Civil, durante entrevista sobre as circunstâncias da explosão na Enaex
A delegada Gessica Andrade, responsável pela investigação da Polícia Civil, durante entrevista sobre as circunstâncias da explosão na Enaex. Foto: Reprdução CGN

O que provocou a explosão?

A resposta exigiu meses de perícias e análises. Equipamentos, documentos, condições estruturais e procedimentos adotados na unidade foram examinados, enquanto funcionários prestaram depoimentos aos investigadores.

Entre os elementos considerados pela Polícia Científica estava a temperatura registrada naquela manhã. O frio, próximo de 3°C, poderia ter contribuído significativamente para o acidente.

A baixa temperatura, entretanto, não foi tratada como uma explicação isolada. A reconstrução da dinâmica da explosão levou em consideração diferentes fatores relacionados às condições de operação, aos equipamentos e aos procedimentos adotados no local.

No dia da explosão, o diretor industrial da Enaex, Daniel Oliveira, concedeu entrevista coletiva em frente à fábrica e respondeu aos questionamentos de jornalistas de diferentes meios de comunicação
No dia da explosão, o diretor industrial da Enaex, Daniel Oliveira, concedeu entrevista coletiva em frente à fábrica e respondeu aos questionamentos de jornalistas de diferentes meios de comunicação. Foto: Elizio Siqueira / União Metropolitana

A investigação criminal chegou ao fim

Em outubro de 2025, a Polícia Civil concluiu o inquérito sem indiciar ninguém por crime doloso ou culposo. Ao mesmo tempo, a investigação apontou indicativos de falhas sistêmicas na gestão de riscos que poderiam ter contribuído para o acidente.

Com isso, a apuração criminal foi encerrada sem apontar um responsável individual. As conclusões, porém, deixaram questões que passaram a ser discutidas em outras esferas, principalmente no campo da responsabilidade civil.

Fachada da Enaex em Quatro Barras durante a investigação da tragédia; veículo da perícia entra na unidade para dar continuidade aos trabalhos de apuração
Fachada da Enaex em Quatro Barras durante a investigação da tragédia; veículo da perícia entra na unidade para dar continuidade aos trabalhos de apuração. Foto: Elizio Siqueira / União Metropolitana

A batalha chegou à Justiça

Em março de 2026, o Ministério Público do Paraná (MPPR) ajuizou uma ação civil pública contra a Enaex.

Entre os pedidos apresentados estão uma indenização mínima de R$ 1 milhão para cada família das nove vítimas, o pagamento de pensões aos dependentes, reparações pelos danos provocados a moradores e empresas do entorno e pelo menos R$ 20 milhões por danos morais coletivos.

O MPPR também pediu a adoção de medidas de segurança e a indisponibilidade de até R$ 50 milhões em bens da empresa. A Justiça, porém, não acolheu integralmente os pedidos.

R$ 4 milhões bloqueados

A Justiça determinou o bloqueio de R$ 4 milhões das contas da empresa, valor considerado para garantir aproximadamente R$ 486 mil a cada uma das famílias das vítimas.

Por outro lado, não foi determinada a interdição imediata das atividades de manipulação de explosivos.

A Enaex permaneceu autorizada a operar, enquanto as discussões sobre responsabilidades, indenizações e demais reparações seguem no âmbito judicial.

Sede do Poder Judiciário de Quatro Barras, onde também passaram a tramitar questões relacionadas às consequências da tragédia
Sede do Poder Judiciário de Quatro Barras, onde também passaram a tramitar questões relacionadas às consequências da tragédia. Foto: PMQB

Acordos com famílias e atingidos

Segundo a Enaex, os acordos de indenização com os dependentes das nove vítimas foram concluídos de forma consensual, com acompanhamento da Defensoria Pública do Estado e dos representantes legais das famílias.

A empresa afirmou ainda que concluiu os atendimentos às residências e empresas atingidas pela explosão na comunidade e que realizou o ressarcimento dos danos materiais registrados no entorno.

Os pedidos formulados pelo Ministério Público, entretanto, continuam sendo discutidos judicialmente.

A região se uniu em homenagens

Nos dias que se seguiram à explosão, a comoção tomou conta de Quatro Barras e Campina Grande do Sul. Familiares, amigos, igrejas e moradores organizaram diferentes homenagens às vítimas, em atos marcados pela fé, solidariedade e pelo desejo de manter viva a memória dos nove trabalhadores.

Em frente à fábrica da Enaex, em Quatro Barras, a comunidade evangélica realizou um ato de oração, com a participação de pastores de diferentes denominações, moradores e líderes religiosos. O momento foi marcado por orações e mensagens de fé em apoio às famílias enlutadas e aos colaboradores da empresa.

Comunidade evangélica se reúne em frente à fábrica da Enaex, em Quatro Barras, para um momento de oração e solidariedade às famílias das vítimas
Comunidade evangélica se reúne em frente à fábrica da Enaex, em Quatro Barras, para um momento de oração e solidariedade às famílias das vítimas. Foto: Elizio Siqueira / União Metropolitana

Na Igreja Pentecostal Unida do Brasil da Borda do Campo, em Quatro Barras, familiares, amigos e moradores participaram de um culto em memória de Pablo Corrêa dos Santos. Mais de 200 pessoas estiveram na cerimônia, marcada por homenagens e lembranças sobre a trajetória do trabalhador.

No Santuário de Nossa Senhora de Fátima, no Jardim Paulista, missas foram celebradas em memória das vítimas e em apoio aos familiares. Em um gesto de acolhimento, cinco famílias receberam porta-retratos com imagens de seus entes queridos, acompanhados de passagens bíblicas.

A Paróquia São Sebastião, em Quatro Barras, também promoveu momentos de homenagem aos trabalhadores mortos. As celebrações reuniram familiares, amigos e a comunidade, com orações dedicadas às nove vítimas e pedidos de consolo às famílias.

Paróquia São Sebastião, em Quatro Barras, reuniu fiéis em momentos de oração e homenagem às nove vítimas da explosão
Paróquia São Sebastião, em Quatro Barras, reuniu fiéis em momentos de oração e homenagem às nove vítimas da explosão. Foto: Adilson Santos / União Metropolitana

A fábrica voltou a funcionar

Após a explosão, as atividades do complexo foram interrompidas e retomadas gradualmente. Segundo a empresa, as 25 unidades produtivas passaram por inspeções antes do retorno das operações, inicialmente com insumos não explosivos.

A área diretamente relacionada à explosão não retomou imediatamente as atividades. A Enaex afirma ainda manter as autorizações necessárias para operar e continuar colaborando com as autoridades.

Área diretamente atingida pela explosão permaneceu sem retomar imediatamente as atividades após a retomada gradual das operações do complexo da Enaex
Área diretamente atingida pela explosão permaneceu sem retomar imediatamente as atividades após a retomada gradual das operações do complexo da Enaex. Foto: Guilherme Oliveira – Empresa Avytra Drones \@avytra.drones

O que diz a Enaex

Em nota mais recente, divulgada por ocasião de um ano da tragédia, a empresa afirmou que recorda a data “com respeito” e que mantém diálogo com as famílias, a comunidade, as autoridades e os colaboradores.

A Enaex também declarou que, desde o acidente, revisou procedimentos, fortaleceu controles, ampliou treinamentos, reforçou a gestão de riscos e implementou medidas adicionais de prevenção.

“A busca pela melhoria contínua passou a ser ainda mais presente em todas as nossas operações”, afirmou a empresa, que também destacou o trabalho dos colaboradores na retomada das atividades.

Complexo industrial da Enaex Brasil às margens da Régis Bittencourt, em Quatro Barras, palco da tragédia que marcou o município há um ano
Complexo industrial da Enaex Brasil às margens da Régis Bittencourt, em Quatro Barras, palco da tragédia que marcou o município há um ano. Foto: Divulgação
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