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Golpes digitais crescem quase 30% no Paraná e passam de 11,5 mil casos

Entre 2024 e 2025, o número de crimes de estelionato cresceu 3,9% no Paraná, alcançando 159.228 ocorrências, segundo dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026. No cenário nacional, o estado teve a 3ª maior taxa de estelionato do Brasil, com 1.339,1 registros a cada 100 mil habitantes. Os casos de golpes digitais tiveram alta ainda mais expressiva: de 8.829 em 2024, passaram para 11.515 em 2025, um aumento de 29,7%, o equivalente a um golpe digital registrado a cada 46 minutos, ou cerca de 31 casos por dia.

O Anuário, com base em informações do Observatório Febraban/Ipespe, apontou os golpes digitais mais comuns no período: clonagem ou troca de cartão (45%), golpe do WhatsApp (34%), falsa central bancária (31%), golpe do Pix (24%), uso indevido do CPF via SMS (13%) e falso leilão ou loja falsa (10%). Segundo a delegada El Santos, da Polícia Civil do Paraná (PCPR), o aumento dos golpes digitais reflete mudanças nos hábitos sociais. “Os criminosos saíram um pouco dos delitos envolvendo a violência física e se aproveitam de técnicas de engenharia social e da presença maciça da sociedade nesses meios digitais. Um segundo aspecto é também aquele senso de urgência cada vez mais ampliado. Os criminosos se aproveitam da oportunidade, da rapidez e da disponibilidade de dados para poder chegar a essas vítimas”, destacou.

Cerca de 15,8% da população brasileira com 16 anos ou mais foi afetada por golpes ou perdas financeiras pela internet ou pelo celular em 2025, conforme o Anuário. Essa vitimização acompanha o grau de digitalização de cada região, o que explica a maior concentração de registros em estados mais conectados, como Paraná, São Paulo e Distrito Federal.

Entre os grupos mais atingidos estão os idosos. A delegada El Santos afirma que, embora os golpistas mirem diferentes perfis, pessoas menos familiarizadas com serviços digitais são mais vulneráveis. “Esse é um grande público que atendemos tanto em relação à entrega de cartões quanto a assuntos envolvendo banco, além de pagamento de boletos e compras falsas”, explicou. Já o advogado Caio Ponczek, professor de Direito Penal e Direito Processual Penal na Escola Paranaense de Direito, destacou o uso da confiança como a principal estratégia dos criminosos. “Uma das características desses golpes é justamente a aparência lícita. As pessoas têm a tendência de confiar com certa tranquilidade em informações transmitidas por ligações telefônicas, e-mails, cartas, boletos ou aplicativos de mensagens. Além disso, os criminosos contam com uma sensação de segurança, uma vez que operam atrás de uma tela, o que representa um risco bem menor de serem presos em flagrante”, apontou.

Outro obstáculo para enfrentar os golpes é o baixo número de casos que chega ao Judiciário. Em 2025, mais de 2,2 milhões de boletins de ocorrência de estelionato foram registrados no Brasil, mas apenas 2,8% dessas ocorrências resultaram em processos penais, ou seja, mais de 97% dos casos não avançaram para essa etapa, conforme o Anuário.

Embora bancos não estejam diretamente envolvidos nos golpes, a legislação determina que instituições financeiras também têm responsabilidades na prevenção de fraudes. Segundo Caio Ponczek, essas instituições podem ser responsabilizadas objetivamente pelos prejuízos sofridos pelos clientes, caso falhas em seus sistemas ou mecanismos de segurança tenham contribuído para a ocorrência do crime. “O banco é responsável em avaliar o perfil de seus correntistas, sejam adultos ou menores de idade representados por responsáveis legais, e estabelecer políticas internas voltadas a barrar transações justamente para evitar a ocorrência de fraudes. Quanto às pessoas idosas, a jurisprudência impõe ainda que sejam tomados cuidados redobrados”, acrescentou o advogado.

Na prática, algumas instituições financeiras já adotam procedimentos rigorosos contra fraudes. A cooperativa Viacredi, por exemplo, treina funcionários para identificar comportamentos que possam indicar golpes e reforça a importância do atendimento presencial como proteção adicional. Segundo Marcelo de Oliveira Marques, diretor administrativo e de riscos da instituição, os atendimentos podem ser cruciais para evitar perdas em casos de engenharia social. “Em golpes de engenharia social, os criminosos normalmente exploram a urgência, o medo e a confiança da vítima. Ter alguém conhecido ou um canal oficial para consultar pode interromper essa pressão e evitar uma perda”, afirmou. Além disso, mecanismos de segurança digital, como monitoramento de perfil transacional e dispositivos utilizados, permitem identificar ações suspeitas e ativar protocolos preventivos antes da conclusão das transações.

Quando uma vítima percebe a ocorrência de fraude, o primeiro passo para tentar recuperar os valores parte dos bancos. Em fraudes envolvendo o Pix, por exemplo, pode-se acionar o Mecanismo Especial de Devolução (MED). O mecanismo possibilita a análise da transação para tentar reaver os recursos, caso ainda estejam disponíveis na conta do golpista. Em outras situações, como no caso de empréstimos consignados, a vítima pode buscar na Justiça a suspensão das cobranças e uma investigação sobre possíveis falhas na segurança dos bancos, sem garantia de ressarcimento imediato. “Aqueles valores que já tiverem sido pagos pelo consumidor não serão devolvidos pelo banco até que se apure se houve falha da instituição financeira”, afirmou Ponczek.

O registro do boletim de ocorrência (BO) é essencial na identificação e combate aos golpes. Com informações como registros de ligações, conversas, números de telefone e comprovantes de transações financeiras, as autoridades podem abrir uma investigação e rastrear os responsáveis pelas fraudes. Além disso, essas provas podem ser úteis para medidas jurídicas, como contestação de operações indevidas e busca por ressarcimento. Segundo a Polícia Civil, esse acompanhamento é fundamental para identificar padrões, rastrear valores e responsabilizar os envolvidos pelas fraudes.

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