A chamada “caneta de emagrecimento” deixou de ser uma novidade restrita aos consultórios médicos e passou a fazer parte das conversas, redes sociais e rotinas de milhares de brasileiros. Entre os medicamentos que ganharam popularidade está o Mounjaro, nome comercial da tirzepatida, inicialmente desenvolvido para o tratamento do diabetes tipo 2 e que passou a ter também indicação para o controle crônico do peso em determinadas condições.
A expansão do uso, porém, trouxe uma discussão que vai muito além da estética. Estudos vêm apontando benefícios metabólicos e cardiovasculares associados a essa nova geração de medicamentos, enquanto outras aplicações ainda estão sendo investigadas. No Brasil, a Anvisa aprovou, em junho de 2025, a indicação do Mounjaro para controle crônico do peso em adultos com obesidade ou sobrepeso associado a pelo menos uma condição relacionada ao peso, sempre em conjunto com dieta de baixa caloria e aumento da atividade física.

Para o médico Caio Tolardo, de Quatro Barras, pós-graduado em Medicina Esportiva e em Obesidade e Emagrecimento, a chamada “era das canetas” representa uma mudança importante na forma de tratar a obesidade. Mas ele faz uma ressalva fundamental: o medicamento não deve ser confundido com uma solução rápida para perder alguns quilos.
“Eu considero uma revolução, porque isso mudou a medicina do emagrecimento, mudou até mesmo a forma como a gente estuda a medicina do emagrecimento”, afirma.
Uma revolução que começou no diabetes
Segundo Caio Tolardo, os primeiros medicamentos da classe foram desenvolvidos para o tratamento do diabetes. Com o tempo, o efeito expressivo sobre a perda de peso chamou atenção e abriu caminho para novas indicações. “Inicialmente, o uso era voltado ao diabetes, para o público diabético. Lá no início era outro princípio ativo, não era ainda a tirzepatida, o famoso Mounjaro de hoje. Esses outros medicamentos possibilitaram o surgimento do Ozempic, do Mounjaro, enfim”, explica.
A partir dos resultados, a classe passou a ser estudada também para o controle do peso. “Foi notando esse efeito não só no emagrecimento, mas também em outras questões. E aí, sim, elas foram também homologadas para emagrecimento”, afirma.
No caso do Mounjaro, a indicação para controle crônico do peso contempla adultos com obesidade (IMC a partir de 30) ou sobrepeso (IMC a partir de 27) associado a alguma condição relacionada ao excesso de peso, como hipertensão, apneia do sono, doença cardiovascular, pré-diabetes ou diabetes tipo 2.

“Principalmente, eu diria, fora a questão de diabetes e emagrecimento, a proteção cardiovascular. Esse é o principal efeito. Ele protege, reduz eventos cardiovasculares, reduz número de infarto e AVC”, destaca.
O médico ressalta, porém, que os benefícios variam conforme o medicamento, o paciente e a indicação. “A gente precisa entender que o emagrecimento não é unicamente por conta da caneta”, resume.
E o câncer?
Há estudos que apontam uma possível relação entre esses medicamentos e a redução do risco de alguns tipos de câncer, mas o tema ainda exige cautela. Para Caio Tolardo, esse efeito seria principalmente indireto, relacionado ao controle da obesidade e da gordura no fígado, fatores associados ao desenvolvimento de determinados tumores. “Essa relação causal direta ainda não conseguimos afirmar. Não há uma comprovação muito robusta. Mas, por exemplo, no caso da gordura no fígado (esteatose hepática), que pode evoluir para o câncer de fígado (carcinoma hepatocelular), ao reduzir esse fator de risco, o medicamento poderia, sim, contribuir diretamente para a prevenção”, afirma.
O especialista frisa que a caneta não deve ser tratada como medicamento contra o câncer, mas como parte de um tratamento que pode melhorar condições de saúde relacionadas ao excesso de peso.

A caneta também pode trazer riscos
Apesar dos benefícios, as canetas não são indicadas para qualquer pessoa e podem causar efeitos colaterais. “Não é porque várias pessoas estão utilizando que é para todo mundo”, alerta o médico.
Segundo ele, os efeitos mais comuns são náusea, constipação e diarreia. Em pacientes diabéticos que usam insulina, também há risco de hipoglicemia. “Não é um medicamento tão inocente assim. Ele pode causar alguns efeitos colaterais”, reforça.
A Anvisa também alerta para o risco de pancreatite aguda associado ao uso indevido. Por isso, o acompanhamento médico é fundamental.

O perigo de usar por conta própria
O médico alerta que sem acompanhamento o paciente pode não reconhecer sinais que exigem avaliação. “Se você relata para o seu médico, ele logo vai identificar, poder te examinar e decidir se vai suspender ou manter o medicamento. Então, o risco para quem utiliza sem acompanhamento é muito maior”, afirma.
Desde 2025, os medicamentos agonistas de GLP-1 passaram a exigir retenção de receita nas farmácias brasileiras, em medida adotada pela Anvisa para reduzir o uso indiscriminado.
Perder peso não significa encerrar o tratamento
O especialista também pontua que a obesidade é uma doença crônica e que a interrupção do medicamento pode levar ao reganho de peso. “Eu simplesmente parei de tratar. Então, corro risco, sim, de ter um reganho de peso porque parei de controlar a obesidade”, explica o médico.
Isso não significa que todos precisarão usar a medicação continuamente. “Significa que vou precisar usar para sempre? Não necessariamente. Essa resposta seria: depende”, resume.

A “cultura da caneta”
Para o médico, o maior equívoco é enxergar o medicamento como um atalho para emagrecer rapidamente. “Ela não é milagrosa. Ela faz parte de um tratamento”, afirma. Ele complementa: “Alimentação, exercícios, sono e controle do estresse continuam fundamentais. “Isso é a base de tudo!”.
Procura cresce na Região Metropolitana
A procura pelo tratamento também aumentou na Região Metropolitana de Curitiba. O consultório de Caio Tolardo recebe pacientes de Quatro Barras, Campina Grande do Sul, Colombo, Curitiba, Pinhais e São José dos Pinhais, refletindo o crescimento do interesse pelo tratamento em diferentes municípios da região.
Segundo o médico, além daqueles que chegam buscando diretamente o medicamento, também existe uma parcela crescente de pacientes interessada em entender como realizar o tratamento de maneira adequada. “Nós temos bastante procura e conseguimos impactar diversas vidas positivamente”, relata.
A caneta é parte do tratamento
Para quem pretende iniciar o tratamento, a orientação é direta: procurar um profissional capacitado. “A medicação, a caneta, é só uma parte do tratamento de emagrecimento. O medicamento por si só não faz milagre”, reforça.
Para o médico, quando há indicação e acompanhamento adequado, os resultados podem representar um importante avanço. “É, sim, um marco muito importante da medicina e talvez seja só o início de uma nova era”, conclui.
SERVIÇO
Para mais informações e orientações sobre o tema, os interessados podem procurar a Clínica Domp, localizada no Espaço Dom Pedro, na Rua Nilo Favaro, 117, no Centro de Quatro Barras. Informações: (41) 99161-9597 (WhatsApp).







