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A “maldição” na Sede de Campina Grande do Sul após a expulsão do padre

À primeira vista, a região da Sede de Campina Grande do Sul parece apenas um lugar tranquilo, marcado pela calmaria, pelo movimento discreto do comércio e por um ritmo bem diferente dos grandes centros. Mas, entre os moradores mais antigos, existe uma história cercada de mistério que, mesmo com o passar dos anos, continua sendo contada até hoje: a “Maldição do Padre”.

Ao percorrer a região central, o próprio cenário urbano parece dialogar com essa ideia de passagem do tempo e, ao mesmo tempo, de esperança no futuro. Na Praça Bento Munhoz da Rocha, um símbolo chama atenção: o chamado “Sino do Milênio”, instalado como marco da entrada do século XXI. Na placa, lê-se uma mensagem de celebração e união da comunidade, dirigida “a todos os campinenses do futuro”, exaltando o progresso, a fé e o desejo de prosperidade para as próximas gerações.

É justamente nesse contraste, entre o sino que anuncia esperança e a história marcada pela ideia de ausência de prosperidade, que o imaginário popular continua encontrando espaço para alimentar uma das narrativas mais emblemáticas da cidade. Como se o silêncio ao redor da igreja matriz também guardasse os vestígios de um passado que nunca foi completamente esquecido.

A “Maldição do Padre” é daquelas narrativas contadas em voz baixa, quase como quem teme despertar algo adormecido no tempo. Os mais antigos juram ter ouvido os avós falarem sobre um padre da Sede que teria sido humilhado, agredido e expulso da cidade. Antes de partir, tomado pela revolta, ele teria lançado palavras pesadas sobre o lugar, dizendo que aquela terra não iria prosperar. Desde então, qualquer fechamento de comércio, banco ou empreendimento na região central acaba trazendo à tona novamente a crença popular.

Entre o cotidiano e a memória da Igreja Matriz

O banco onde o morador estava sentado fica de frente para a Paróquia São João Batista, padroeiro do município, um local profundamente ligado à memória da comunidade. No mesmo espaço esteve a antiga igreja, construída em 1880 e desmanchada em 1997, apontada por muitos moradores como um dos principais cenários da história envolvendo o padre e a suposta maldição atribuída à região.

Se aquelas paredes ainda estivessem de pé e pudessem falar, certamente revelariam não só essa, mas muitas histórias curiosas, entre fé, lembranças e mistérios que permanecem vivos ao longo de gerações.

Fé, medo e o imaginário popular

Segundo a Secretaria Municipal de Cultura, a história chegou inclusive a integrar exposições da Casa da Memória ao lado de outras crenças locais, como a Cobra do Capivari e relatos sobre o Chupa-cabra. Os banners da exposição já foram retirados, mas o material segue preservado no acervo cultural do município. Curiosamente, a “Maldição do Padre” não é exclusiva de Campina Grande do Sul.

Narrativas semelhantes aparecem em outras cidades antigas do Sul do Brasil, especialmente em regiões marcadas pelo tropeirismo, por conflitos entre coronéis e religiosos e pela forte colonização portuguesa. Ainda assim, isso não descarta a possibilidade de que episódios do tipo também tenham ocorrido em Campina Grande do Sul, que na época possuía características típicas de uma cidade do interior, marcada por forte influência do coronelismo e pelas relações de poder da época.

A “maldição” na Sede de Campina Grande do Sul após a expulsão do padre
Foto: Adilson Santos. A Igreja Matriz São João Batista, padroeiro do município, divide espaço com a calmaria da Sede. No mesmo endereço, até 1997 funcionou a antiga paróquia que foi um dos cenários da história local que ainda permanece na memória popular.

COINCIDÊNCIA OU MALDIÇÃO

Para muitos moradores, coincidência ou não, a Sede parece refletir uma realidade construída ao longo do tempo: uma região mais calma, de pouco movimento, marcada por deslocamentos econômicos, pela distância dos principais eixos de circulação e por um ritmo urbano mais lento, onde a dinâmica comercial nem sempre acompanha o desenvolvimento de outras áreas do município.

É nesse cenário que o passado parece se misturar ao presente, reavivando a lembrança das palavras atribuídas ao padre de que a região não seria próspera. Uma narrativa que, para alguns, ganha força diante de acontecimentos que fazem parte da rotina local.

Nos últimos anos, a Sede tem passado por mudanças no cenário comercial, com o encerramento ou redução de serviços que historicamente tiveram papel importante na dinâmica econômica da região. Entre os exemplos estão o banco próximo à praça central e o caixa eletrônico instalado no prédio da Prefeitura, que deixaram de operar. A agência dos Correios passou a oferecer serviços mais limitados, e a lotérica central também encerrou suas atividades, reduzindo pontos de circulação e atendimento no centro.

A “maldição” na Sede de Campina Grande do Sul após a expulsão do padre
Foto: Adilson Santos / União Metropolitana. Recentemente, a lotérica fechou as portas e os Correios passaram a operar com serviços mais limitados. Mudanças que refletem a redução de pontos comerciais e de atendimento na Sede.

Essas estruturas, ao longo do tempo, foram fundamentais não apenas na prestação de serviços, mas também no movimento de pessoas e no fortalecimento do comércio local. O fechamento gradual desses espaços representa, assim, uma reconfiguração da dinâmica urbana e econômica da Sede.

Com isso, o centro da cidade vai, aos poucos, redesenhando seu ritmo, acompanhando novas centralidades econômicas no município, enquanto ainda preserva marcas de um período em que esses serviços eram referências para a população.

Mas, para muitos moradores, há algo que vai além das explicações econômicas e administrativas. É nesse ponto que a lenda volta a ganhar fôlego. Cada comércio que fecha, cada prédio vazio, cada promessa de desenvolvimento que não se concretiza acaba reacendendo uma memória antiga, ecoada entre gerações.

Enquanto isso, comerciantes enfrentam um cenário de pouco movimento: algumas lojas abrem cheias de expectativa, mas pouco tempo depois encerram suas atividades; outras resistem como podem, em uma região que muitos descrevem como economicamente esquecida, embora ainda viva em sua identidade e rotina.

Há quem veja nisso apenas transformações naturais da economia e o crescimento de polos mais movimentados, como o Jardim Paulista. Mas há também quem enxergue um padrão difícil de ignorar. E é nesse intervalo, entre o concreto do presente e as memórias do passado, que a antiga lenda parece voltar a percorrer, em silêncio, as ruas da Sede.

A “maldição” na Sede de Campina Grande do Sul após a expulsão do padre
O bar mais antigo da região ainda resiste como o único em funcionamento. Mesmo com o pouco movimento, o espaço segue aberto, preservando parte da história e da convivência local. Foto: Adilson Santos / União Metropolitana.

O QUE DIZEM OS COMERCIANTES A RESPEITO

“Não acredito em maldição, mas o centro perdeu movimento”

Diferente de muitos moradores que associam as dificuldades da Sede à chamada “Maldição do Padre”, a comerciante Simone Xavier não vê relação entre a lenda e a realidade econômica da região. Católica e há quase 20 anos à frente de uma loja no centro da cidade, ela afirma que nunca acreditou na narrativa. “Eu acho que não tem nada a ver essa praga. Muita gente comenta, mas eu não consigo acreditar nisso”, disse.

Apesar disso, Simone reconhece que o comércio local enfrenta mudanças significativas. Para ela, a permanência dos negócios depende mais da relação com os clientes do que de qualquer crença popular. “Eu sobrevivi muito por amizade, pelo conhecimento das pessoas e por facilitar a vida do cliente”, contou.

Ela observa, porém, que o centro perdeu força após o fechamento de serviços essenciais. “Quando tinha banco aqui, vinha gente do interior, da Represa, do Caraguatá. O pessoal passava pelas vitrines, movimentava o comércio. Depois que fechou, a gente sentiu bastante”, afirmou.

Para Simone, o que falta hoje é justamente o retorno de serviços que voltem a atrair circulação. “Acho que precisava pelo menos de uma agência bancária pra movimentar mais a Sede”, completou.

A “maldição” na Sede de Campina Grande do Sul após a expulsão do padre
Foto: Divulgação. Há quase 20 anos no comércio da Sede, Simone Xavier não acredita na ‘Maldição do Padre’, mas reconhece que o centro perdeu movimento. Foto: Elizio Siqueira / União Metropolitana.

“O movimento caiu bastante com o tempo”

Com dois anos e meio trabalhando em uma açaíteria na Sede, Fabíola dos Santos, 23 anos, afirma que percebe claramente a redução do fluxo de clientes na região central. “Quando eu vinha aqui só como cliente já era diferente. Hoje dá pra perceber bastante a queda no movimento”, relata.

Segundo ela, a retirada de serviços como banco e lotérica contribuiu para o esvaziamento. “Muita coisa que tinha aqui foi retirada. O pessoal acaba indo mais para o Jardim Paulista”, disse.

Fabíola observa a dificuldade de permanência dos comércios. “Já vi lugares abrirem e fecharem em menos de um ou dois anos”, afirmou.

Sobre a “Maldição do Padre”, Fabíola trata o tema como parte do imaginário local. “Eu acho mais superstição mesmo, mas muita gente antiga acredita de verdade nessa história”, disse. Para ela, trata-se de uma narrativa transmitida entre gerações. “O pessoal mais antigo comenta bastante. É uma história que atravessa gerações aqui”, concluiu.

“A sede vai ficando esquecida”

Com 16 anos de atuação na Sede, a comerciante Cleonice dos Santos da Silva, 62 anos, afirma que a região enfrenta dificuldades antigas ligadas à falta de serviços e investimentos. Ela, que trabalha com uma lanchonete e restaurante, cita o fechamento da lotérica e a saída da agência bancária como fatores que impactaram diretamente a rotina da população. “Até para fazer um depósito a pessoa precisa sair daqui. Às vezes acaba gastando mais com Uber”, comentou.

Segundo Cleonice, a sensação entre moradores é de esvaziamento. “A gente sente que tudo acaba indo para outros bairros e que a sede vai ficando esquecida”, afirmou.

Moradora de Campina Grande do Sul desde o casamento, depois de vir de Pinhais, ela diz conhecer a história da chamada “Maldição do Padre”, bastante comentada entre os mais antigos. “Todo mundo já ouviu falar dessa história. Tem gente que acredita, tem gente que acha superstição”, disse.

Mesmo com os desafios, ela mantém o comércio funcionando e acredita na recuperação da região. “A gente espera que a Sede volte a receber mais atenção e desenvolvimento”, completou.

A “maldição” na Sede de Campina Grande do Sul após a expulsão do padre
Foto: Elizio Siqueira / União Metropolitana. Com 16 anos de atuação na Sede, Cleonice dos Santos da Silva afirma que o fechamento de serviços e a migração do movimento para outros bairros fizeram a região ‘ficar esquecida’.

“Hoje nada vai para frente”

Aos 87 anos, o comerciante Faustino Jurendir Lazaruto acompanha há décadas as mudanças na Sede de Campina Grande do Sul. Dono do único bar em funcionamento no centro, ele relata um cenário de dificuldades para manter o negócio ativo. “Hoje abre um comércio e, em 60 dias, já quebrou”, afirmou. Segundo ele, muitos estabelecimentos encerraram atividades por falta de movimento. “Aqui nada vai para frente”, disse.

Faustino conta que o número de comércios ativos na região diminuiu ao longo dos anos. Segundo ele, a Sede já teve mais movimento, principalmente em épocas em que bares, pequenos mercados e pontos de encontro movimentavam o cotidiano da comunidade. “Antes tinha mais bares por aqui. Hoje sobrou quase só eu”, relatou.

Após cerca de 50 anos de funcionamento, ele afirma que também avalia encerrar as atividades do estabelecimento, cenário que, para muitos moradores, reforça a sensação de estagnação frequentemente associada à história da suposta maldição.

Sobre o caso, Faustino diz ter ouvido a narrativa inúmeras vezes ao longo da vida. Afirma não acreditar totalmente, mas também evita descartar a história por completo, reconhecendo que ela faz parte do imaginário popular da região. “O pessoal fala disso faz muitos anos. E, sinceramente, parece que aqui nada consegue prosperar mesmo”, comentou.

“Só a Sede foi amaldiçoada”

Israel Guariza, 86 anos, morador da localidade do Mandaçaia e proprietário de uma vinícola artesanal na região, afirma conhecer a história da “Maldição do Padre” desde a infância. Mesmo vivendo em uma área vizinha à Sede, ele diz que a narrativa sempre fez parte das conversas antigas. “Quando eu era guri, já escutava esse assunto”, lembra.

Segundo Israel, a história sempre foi contada de forma específica, atingindo apenas a Sede de Campina Grande do Sul, e não o município como um todo. “O padre apanhou lá na Sede e, antes de ir embora, ele disse que aquela região não iria ser próspera. As pessoas acham que foi a cidade toda, mas não, só o centro mesmo”, afirmou.

Para ele, esse tipo de relato reforça a ideia de um fato histórico por trás da narrativa. Israel também situa o episódio em um período anterior à gestão do primeiro prefeito de Campina Grande do Sul, Dacir Trevisan, destacando a antiguidade da história na memória local.

A “maldição” na Sede de Campina Grande do Sul após a expulsão do padre
Foto: Elizio Siqueira / União Metropolitana. Morador do Mandaçaia, Israel Guariza, 83 anos, reforça que a narrativa sempre foi associada apenas à Sede de Campina Grande do Sul, e não ao município como um todo..

Levantamento aponta conflito que deu origem à “Maldição do Padre” e pesquisador confirma: “Tem base histórica!”

Pesquisa realizada durante as comemorações dos 60 anos da recriação da Paróquia São João Batista buscou separar o que pertence ao imaginário popular e o que realmente possui base histórica no caso.

Uma pesquisa conduzida por Mateus França Tozetto Schemberger ajuda a separar o que pertence ao imaginário popular e o que realmente possui base histórica na chamada “Maldição do Padre”. Coordenador de comunicação da Paróquia São João Batista, ele explica que a narrativa ganhou força principalmente porque coincidiu com períodos reais de decadência administrativa e religiosa vividos pela cidade ao longo do século passado.

A “maldição” na Sede de Campina Grande do Sul após a expulsão do padre
Foto: Arquivo pessoal. Mateus França Tozetto Schemberger foi o responsável pelo levantamento histórico que buscou compreender as origens da chamada “Maldição do Padre”, reunindo documentos, relatos e registros da época

Segundo o pesquisador, após o suposto conflito envolvendo o padre austero expulso da localidade entre as décadas de 1920 e 1930, Campina Grande do Sul enfrentou mudanças importantes em sua estrutura administrativa. O município perdeu sua autonomia política e deixou de existir oficialmente como cidade independente por um período, passando a ser incorporado administrativamente a outros municípios da região.

Além disso, a própria Paróquia São João Batista também deixou de existir temporariamente como paróquia autônoma, ficando sem padre residente até sua recriação oficial, em 19 de março de 1962. A comunidade da atual Sede dependia de atendimentos religiosos vindos de outras localidades. Missas, celebrações e sacramentos passaram a ocorrer de forma mais limitada, cenário que marcou profundamente a memória coletiva dos moradores.

Para ele, esses acontecimentos históricos concretos acabaram alimentando ainda mais a narrativa popular da suposta maldição. Para muitas famílias da época, a perda da autonomia do município e o fechamento da paróquia eram vistos como sinais de decadência da cidade.

A “maldição” na Sede de Campina Grande do Sul após a expulsão do padre
Foto: Arquivo. Um antigo registro da Sede de Campina Grande do Sul mostra a praça e a antiga paróquia, demolida em 1997, cenário ligado a capítulos marcantes da história religiosa, social e econômica do município.

Fontes históricas e relatos antigos

Durante a investigação, Mateus encontrou referências importantes em obras como “Memória Histórica Paranaense”, do historiador Francisco de Paula Negrão, além do livro “Pastoral da Alegria”, do missionário claretiano Pe. Irio Rissi. As fontes apontam que a história provavelmente aconteceu entre as décadas de 1920 e 1930, envolvendo um padre descrito como extremamente rígido e austero, cuja postura teria provocado forte conflito com a população da época.

De acordo com os levantamentos históricos, o sacerdote teria sido expulso da localidade após desentendimentos constantes com os moradores. Algumas versões populares afirmam que ele teria sido agredido e até amarrado a um cavalo antes de deixar a cidade.

No livro do Pe. Irio Rissi, que reúne relatos e fatos pitorescos da vida sacerdotal, o episódio é citado a partir de histórias ouvidas dos próprios moradores da cidade. Em um dos trechos, o religioso descreve a chegada de missionários claretianos a Campina Grande do Sul, em 1960:

“Algumas vezes, nossos formadores nos davam outros afazeres. E foi assim que, em 1960, fomos, juntamente com missionários adestrados, pregar uma missão na pequena cidade de Campina Grande do Sul, a quarenta quilômetros de Curitiba. Éramos 23 seminaristas teólogos. Os trabalhos foram distribuídos. Um padre e eu ficamos na matriz. Igreja sem padre há muitos anos. O último padre foi mandado embora depois de receber uma surra do povo. E diziam seus habitantes que o padre rogou uma praga: aquela cidade nunca haveria de progredir.”

O texto continua relatando as dificuldades enfrentadas pela cidade naquele período:

“E assim aconteceu: uma cidade suja, pobre, esburacada. O prefeito resolveu promover uma missão. Ele fazia tudo: rezava o terço, enterrava os mortos, etc.”

A “maldição” na Sede de Campina Grande do Sul após a expulsão do padre
Foto: Arquivo Pessoal. Em um dos capítulos do livro “Pastoral da Alegria”, do missionário claretiano Pe. Irio Rissi, é relatado o episódio de um padre que teria sido agredido em Campina Grande do Sul.

A missão religiosa e a “quebra da maldição”

O livro também descreve a chegada do missionário Padre Aniceto, durante a missão religiosa realizada na cidade:

“O prefeito abriu a procissão carregando a pesada cruz. O grande missionário, Padre Aniceto, fez um sermão digno de uma epopeia. Com sua voz forte anunciava aos quatro ventos: ‘esta cidade não está amaldiçoada; mil vezes abençoada!’”

Na sequência, o relato faz uma comparação entre a cidade da época e o desenvolvimento alcançado posteriormente:

“O povo permanecia imóvel. Na época, Campina Grande tinha cinco mil habitantes. Hoje está com quase trinta mil. Uma cidade bonita com toda a infraestrutura.”

Mateus ressalta que muitos detalhes acabaram ganhando contornos fantasiosos ao longo das gerações, mas afirma que existem indícios suficientes para considerar o conflito um fato histórico real. “A lenda do padre é uma história real, que ganha contornos fantasiosos pela oralidade e pelo período histórico”, destacou.

O pesquisador também acrescenta que outras obras e autores ajudam a enriquecer e dar maior consistência ao entendimento histórico do episódio, reforçando sua plausibilidade dentro do contexto da época. Entre eles, estão referências como Arquidiocese de Curitiba, Na sua história (1956); Camargo, Paulo Florêncio da Silveira, Dom Manuel da Silveira D’Elboux (1972); e Fedalto, Pedro Antônio Marchetti, História da Igreja no Paraná (2014).

Projeto de resgate histórico

Foi justamente durante as comemorações dos 60 anos da recriação da paróquia que surgiu o projeto de resgate histórico coordenado por Mateus. O trabalho reuniu entrevistas com moradores antigos, levantamento documental, registros da Igreja e pesquisas em livros históricos, buscando compreender como a história atravessou gerações.

Durante o levantamento, ele encontrou relatos que associavam diretamente os períodos de decadência econômica e administrativa da cidade ao episódio envolvendo o padre austero que teria sido expulso da localidade entre as décadas de 1920 e 1930.

Mateus afirma que um dos aspectos mais interessantes da pesquisa foi perceber como fatos históricos concretos passaram a ser explicados simbolicamente pela população. “A narrativa da maldição acabou funcionando como uma forma de explicar períodos de decadência e sofrimento coletivo”, destacou.

O pesquisador também observou um ponto sensível durante as entrevistas. Segundo ele, alguns moradores demonstraram certo receio ao comentar detalhes do episódio. Em determinados casos, a hesitação parecia vir de um respeito à memória oral da história ou até de um medo velado de que a narrativa ainda pudesse ter algum tipo de “força” simbólica.

A “maldição” na Sede de Campina Grande do Sul após a expulsão do padre
Foto: Arquivo. Registro de 1963, do acervo da família Ruzenente, mostra uma celebração de primeira comunhão em frente à igreja, já sob a condução do padre Erwin, em um momento posterior aos acontecimentos que marcaram a mudança na paróquia da Sede.

Comportamentos sociais atravessaram décadas

Outro detalhe que chamou atenção do pesquisador foi a repetição de comportamentos sociais descritos em documentos históricos de épocas diferentes. Em uma das obras analisadas, o historiador Francisco de Paula Negrão descreve uma população mais ligada a festas e bailes, enquanto o padre da época exigia uma conduta mais rígida e religiosa.

Décadas depois, já nos anos 1960, o primeiro pároco da nova fase da paróquia, padre Erving Kaufmann, registrou em livro tombo reclamações semelhantes sobre os hábitos da comunidade, relatando inclusive situações em que moradores deixaram de participar das celebrações religiosas para comparecer a bailes da cidade.

Para Mateus, essas coincidências históricas ajudam a compreender por que a narrativa permaneceu viva por tanto tempo. Com isso, ele acredita que a história acabou se tornando parte da identidade cultural e religiosa de Campina Grande do Sul.

Outras versões da história

Segundo relatos preservados pela tradição oral e por pessoas ligadas à cultura do município, existem diferentes versões sobre o episódio que envolve a chamada “Maldição do Padre”, todas transmitidas ao longo de gerações e moldadas pela memória coletiva da região.

O acolhimento a prostituta

Mas, como toda narrativa antiga, a história ganhou novas interpretações com o passar do tempo. Entre elas, uma versão menos citada envolve uma mulher considerada “da vida”, como se dizia antigamente. Segundo esse relato, o padre teria acolhido e abençoado uma prostituta que vivia na região e seria proprietária de um bordel.

Para a sociedade conservadora da época, o gesto teria causado escândalo. “Imagina um padre oferecer bênção para uma prostituta naquele tempo”, comentou um morador. “Isso podia ser considerado um sacrilégio.”

Diante da repercussão, religiosos e moradores mais conservadores teriam pressionado pela saída do padre, inconformados com o que consideravam uma postura inadequada para o período. Antes de deixar a localidade, ele teria afirmado que o povo dali possuía uma “mente pequena” e que a cidade seria tão pequena quanto seus pensamentos — frase que, repetida ao longo dos anos, acabou incorporada ao imaginário popular.

O coronel, a cachaça e o revólver

Entre as versões mais conhecidas da narrativa, há também aquela que envolve diretamente um confronto com um coronel da região.

Segundo esse relato, o padre teria chegado à localidade e se posicionado ao lado dos mais pobres, criticando abusos e a forma como trabalhadores eram tratados por figuras de poder. A postura teria incomodado lideranças locais.

Em uma visita de recepção, um coronel teria convidado o padre para uma conversa, onde havia uma garrafa de cachaça sobre a mesa. O homem, acostumado a demonstrar autoridade, teria inclusive o hábito de mexer a bebida com a ponta de um revólver antes de servir, como forma de intimidação.

O padre, porém, teria recusado a bebida e criticado o comportamento violento e a forma de poder baseada no medo. A recusa teria gerado tensão imediata.

Na sequência, o conflito teria escalado, resultando na agressão e expulsão do padre da vila, em um ato de força e domínio local. Antes de deixar a comunidade, ele teria repetido a ideia de que a região não prosperaria, frase que acabou atravessando gerações na tradição oral.

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