CAMPINA GRANDE DO SUL - PREFEITURA
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Tio Sam: Memórias de uma Era - Do brilho das pistas ao desfecho de um ícone: a história de Ceará, o fundador do Tio Sam 

Para encerrar com chave de ouro a série especial Tio Sam: Memórias de uma Era, não poderíamos deixar de falar da mente por trás de todo esse fenômeno: o próprio fundador da casa, Aldemir José da Costa, popularmente conhecido como Ceará.

Aos 73 anos, ele ocupa um lugar de destaque na galeria de personagens que moldaram a identidade cultural de Campina Grande do Sul e região — um grupo seleto onde poucos possuem tamanha vivacidade e magnetismo. Formado em Arte Cênica pela Fundação Teatro Guaíra, Ceará foi quem, nos bastidores, deu nome, alma e o seu registro comercial a uma época que se tornou inesquecível.

Nesta edição final, fomos ao encontro do idealizador para resgatar os detalhes de uma trajetória que partiu do sertão para iluminar as noites do sul com o brilho pioneiro do neon.

Foto: Adilson Santos / União Metropolitana. Aos 73 anos, Ceará segue como símbolo de uma era. Fundador do Tio Sam, ele transformou criatividade e coragem em um dos capítulos mais vibrantes da história de Campina Grande do Sul

Do sertão de Juazeiro ao asfalto da BR-116

Embora tenha nascido em Maringá, em 1952, Aldemir é, por direito e alma, um legítimo filho de Juazeiro do Norte, na terra do Padre Cícero. O vínculo com as raízes é tão profundo que ele carrega no próprio apelido o nome do seu estado de coração. Vindo da região do Cariri, no Nordeste brasileiro, ele trouxe na bagagem a resiliência do retirante e uma habilidade rara: o dom das artes plásticas. 

“Eu cheguei aqui com 18 para 19 anos num caminhão. Minha profissão me sustentou sempre: sou pintor, letrista e desenhista”, revela. Foi com esse olhar artístico e as mãos calejadas pelo trabalho que ele começou a desenhar não apenas letreiros, mas o futuro de uma das casas mais icônicas da região 

Antes das pistas de dança, seu palco era o para-choque dos caminhões. Pintando frases e desenhos artísticos, Ceará acumulava capital e visão de mercado. Foi essa percepção que o levou a abrir uma loja de acessórios no antigo Posto Tio Doca,  às margens da BR-116, em Campina Grande do Sul. 

O Sam Doc: o embrião da noite campinense

A semente do Tio Sam foi plantada sob a benção de um dos homens mais poderosos da região na época: o velho Tio Doca. “Ele mandava em Campina e Quatro Barras. O banco mandava um carro forte na segunda-feira lá só para buscar o dinheiro dele”, relembra Ceará.

O palco do Tio Sam recebeu bandas e conjuntos que embalaram a juventude com  grandes sucessos da época.

Observando que os jovens da região e os caminhoneiros que cruzavam a BR-116 não tinham qualquer opção de lazer, Ceará deu o seu primeiro passo como visionário do entretenimento ao fundar o Sam Doc. O nome era uma fusão carregada de significado: o prefixo “San” (santo, em espanhol) unido a “Doc”, uma reverência direta ao seu mentor e proprietário do posto, o lendário Tio Doca.

Instalado em um salão do outro lado da rodovia, o local funcionava como um autêntico bailão, onde a música sertaneja e os conjuntos gaúchos eram os protagonistas absolutos. Em uma época em que as grandes capitais ainda engatinhavam no gênero, o Sam Doc já era parada obrigatória, trazendo ao palco nomes de peso que, muitas vezes, nem chegavam a se apresentar em Curitiba.

Fotos: Arquivo pessoal. Integrantes da Banda Corel que foi uma das atrações que ajudaram a consolidar o Tio Sam como referência regional em música ao vivo da época.

Foi ali, naquele salão de 500 metros quadrados em meio ao mato, que Ceará testou sua veia artística e criativa pela primeira vez no ramo do entretenimento. Ele mesmo projetou um teto de plástico com luzes coloridas por cima, uma inovação que atraía multidões tão grandes que o espaço ficava completamente lotado, sem lugar sequer para estacionar uma bicicleta.

A conquista do Jardim Paulista e o luxo da Polovil

A transição para o local que se tornaria o Tio Sam no Jardim Paulista é digna de um roteiro de cinema. O imóvel pertencia à bilionária família dona da fábrica de louças Polovil, de Campo Largo. Ceará recorda o escritório luxuoso do proprietário, repleto de fotos de viagens de moto pela França e Espanha.

O negócio foi fechado na base da confiança, o famoso “fio do bigode”, com o aval de José Zaanlirenz, dono de um depósito de bebidas e amigo do proprietário. Ceará alugou o prédio de vidro e piso de madeira polida sem revelar, de imediato, que transformaria o local em um templo da noite, temendo o preconceito dos vizinhos.

Ceará recorda que a formalidade foi substituída pela palavra empenhada. Ele apenas ligou para o proprietário do suntuoso prédio da Polovil manifestando o interesse na locação, mas o caminho já havia sido pavimentado pelo prestígio de seu grande amigo, “Zé” Zaanlirenz. 

 “Tenho um conhecido meu, gente finíssima, que quer alugar o seu ponto. Ele vai te ligar para vocês fecharem o negócio”, teria dito o amigo ao bilionário empresário de Campo Largo. Com esse “pistolão” — como se dizia na época — as portas se abriram sem a necessidade de pilhas de documentos, selando o destino do que viria a ser o Tio Sam.

Tecnologia de ponta: o teto que “dançava”

A inauguração do Tio Sam apresentou à região algo jamais visto, um verdadeiro choque de modernidade. Ceará, emprestando seu talento de artista plástico, desenhou pessoalmente cada traço do logotipo que se tornaria icônico. Mas o verdadeiro “pulo do gato” veio da parceria com o engenheiro japonês TotI: juntos, instalaram uma tecnologia que nem as casas mais luxuosas do centro de Curitiba possuíam nos anos 80.

Tratava-se de um sistema revolucionário, onde 800 lâmpadas especiais instaladas no teto eram escravas da batida: elas piscavam e ganhavam vida em total sincronia com o ritmo da música. Para sustentar esse show de luzes, o aparato sonoro era uma fortaleza de engenharia. Uma parede de caixas de som, com impressionantes três metros de altura por dez de comprimento, dominava o ambiente, entregando uma potência e uma fidelidade sonora que tornavam a experiência no Tio Sam algo simplesmente espetacular.

Por que “Tio Sam”? 

O nome Tio Sam surgiu a partir da referência ao icônico Uncle Sam, símbolo do exército dos Estados Unidos, eternizado no famoso cartaz “I Want You” — em português, “Eu preciso de você”. A ilustração foi criada em 1917 pelo artista James Montgomery Flagg durante a Primeira Guerra Mundial. Com o dedo apontado diretamente para quem observa, o personagem de barba branca e cartola tornou-se um dos mais marcantes símbolos de patriotismo e convocação militar da história dos Estados Unidos.

Ceará enxergou naquela imagem um chamado forte, direto, impossível de ignorar. Mas, em Campina Grande do Sul, o sentido era outro. O Tio Sam dali não convocava jovens para a guerra — convocava para a pista de dança. Se o personagem americano precisava deles para o alistamento, o Tio Sam do Ceará precisava da juventude para dar vida às noites embaladas por hits importados e pela vibração contagiante dos anos 80.

Era um convite simbólico e poderoso: a cidade precisava daquela geração dançando, celebrando e escrevendo sua própria história sob as luzes do salão.

Antes de chegar ao nome definitivo, outras ideias passaram pela cabeça de Ceará. Uma delas era “Ás de Ouro”, numa referência direta às cartas de baralho. O nome soava forte, imponente, quase vencedor. Mas ele mesmo percebeu que poderia gerar interpretações equivocadas, remetendo a uma casa de jogos ou apostas. Não era essa a proposta. A ideia era entretenimento, música e pista cheia — não cartas na mesa. 

A curadoria sonora 

O comando musical ficava a cargo de feras como o DJ Tony, do lendário Jet Music, um dos maiores nomes da cena de Curitiba na época. A seleção musical era cirúrgica, focada no melhor da discoteca e nos hits que acabavam de desembarcar de São Paulo e Rio de Janeiro, transformando o Tio Sam no quartel-general do “pessoal do passinho” em noites de gala.

Essa vanguarda musical era fruto de uma parceria estreita entre o dono e o DJ. Como o próprio Ceará recorda com orgulho: “Ele tinha uma playlist das músicas que estavam bombando nas casas de São Paulo. Eu ajudava a fazer a seleção. Sempre quando o hit novo era lançado, o Tio Sam era o primeiro a tocar”. Essa exclusividade garantia que o público da região não precisasse se deslocar até a capital para ouvir o que havia de mais moderno no mundo; o futuro chegava primeiro no Jardim Paulista.

Amizades de peso e bastidores inusitados

A influência do Tio Sam era tamanha que o então prefeito de Campina Grande do Sul, Elerian Zanetti (o Toco), era frequentador assíduo. “O Toco deixava o carro dele, aquele MP Lafer bonito, lá no fundo. Ele era meu amigo”, conta Ceará. Em episódios curiosos, o próprio prefeito chegava a ficar na porta do salão ajudando na recepção enquanto o porteiro oficial não chegava.

Outra figura importante era Jair Perboni (proprietário do Boni Supermercados). Na juventude, Jair trabalhava no extinto banco Bamerindus e ia pessoalmente recolher o malote do Tio Sam, enquanto seus irmãos trabalhavam atrás do balcão fazendo caipirinhas para a multidão.

O fim de um ciclo e a eternidade do nome

Por trás do brilho do neon e da euforia das pistas, a noite também impunha seus desgastes. Ceará recorda, com uma ponta de amargura, os desafios com a conduta de funcionários e o vandalismo que o forçou a reformar os banheiros da casa por seis vezes. Para o artista, o desânimo com essas situações acabou silenciando a paixão pelo negócio. “O desgosto é a pior coisa na vida. Quando você se desilude, acaba”, desabafa, sintetizando o fim de um ciclo.

Ceará conta que chegou a passar a gestão do Tio Sam para outras pessoas, mas o desfecho não foi o esperado. Segundo ele, os novos gestores não conseguiram manter a essência que ele havia construído com tanto critério. O erro fatal foi a mudança radical na identidade sonora: enquanto o público fiel buscava o ritmo da discoteca, a nova administração decidiu investir no rock. “Eles mudaram as músicas que eu botava, o que eu fazia, era uma seleção de músicas, bicho”, explica Ceará, sugerindo que essa alteração na curadoria musical descaracterizou a casa e selou o seu destino. 

O desfecho de uma era 

Ao se despedir do Tio Sam e de todo o complexo tecnológico que ajudou a construir, Ceará recorda que a transição envolveu negociações simbólicas da época, chegando a aceitar veículos como parte do pagamento. No entanto, para o idealizador, o valor material já não preenchia o vazio deixado pela quebra da conexão emocional com o lugar. Hoje, Aldemir desfruta de uma vida serena e saudável. Embora preserve com zelo o registro da marca Tio Sam sob sua posse, ele é categórico ao afirmar que não pretende retornar ao ramo da vida noturna e das bebidas alcoólicas. Seu ímpeto criativo, contudo, permanece vibrante: o artista agora canaliza seu talento para a pintura de telas e para o universo lúdico dos espetáculos infantis.

Um amor que nasceu no Tio Sam 

Foi no ambiente vibrante do Tio Sam que Ceará conheceu Miriam Doroti Palhano, companheira que se tornaria seu grande apoio na vida pessoal e profissional. Entre as madrugadas da casa noturna nasceu uma história de amor que já dura 41 anos de casamento. Mais do que espectadora, Miriam foi braço direito em cada etapa da trajetória de Ceará, sustentando a base familiar que deu origem aos filhos Vinicius Gabriel e Karla Costa e que hoje se prolonga na alegria dos netos Samuel Ferreira e Ana Carolina Ferreira.

Foto: Adilson Santos / União Metropolitana. Sob as luzes do Tio Sam, nasceu a parceria de vida entre Ceará e Miriam Doroti, juntos há 41 anos.

Bar do Gema: onde o Tio Sam ainda vive e nossa série se despede 

O ponto de encontro para os saudosos mudou de endereço, mas a alma permanece intacta: o Bar do Gema, em Colombo. Foi justamente lá que iniciamos esta jornada de resgate ao lado de Gilmar Gema, dono do bar e frequentador assíduo da casa, e é lá também que agora encerramos nossa série especial.

O cenário para a entrevista com Ceará não poderia ser mais emblemático. Cercado por objetos originais que adornam as paredes como em um museu afetivo, ele não estava sozinho: estava rodeado de velhos amigos da era de ouro do Tio Sam. 

Foto: Adilson Santos / União Metropolitana. Ao lado de Ceará, amigos da era de ouro do Tio Sam mantêm vivas as memórias da casa no Bar do Gema, ponto de encontro onde as histórias continuam sendo compartilhadas.

Durante a conversa, a emoção transbordou com um reencontro inesperado: Ceará dividia a mesa com um amigo que não via há mais de 30 anos. Ali, entre histórias inusitadas, memórias compartilhadas e abraços apertados, ficou claro que, embora as luzes de neon tenham se apagado, a chama daquela lendária casa noturna continua viva e pulsante no coração de quem guardou esses tempos dourados para sempre.

Ao se despedir dessa trajetória que marcou época, Ceará faz questão de deixar uma mensagem de gratidão. Ele agradece a todos que passaram pelo Tio Sam — amigos, frequentadores, DJs, funcionários e parceiros — e que ajudaram a transformar a casa em um símbolo de uma geração. “Se o Tio Sam se tornou inesquecível, foi por causa de cada pessoa que entrou ali para dançar, sorrir e viver bons momentos”, resume. Para ele, mais do que uma casa noturna, o Tio Sam foi um encontro de histórias — e cada uma delas segue viva na memória de quem fez parte dessa era. 

O Tio Sam reimaginado pela IA

Com base nas histórias narradas por Ceará, reunindo momentos marcantes da trajetória da casa, recorremos à Inteligência Artificial para transformar essas memórias em imagens e reviver, ainda que simbolicamente, esse período tão especial. Confira:

Antes do Tio Sam existir, o Sam Doc foi o primeiro investimento de Ceará no ramo do entretenimento. Instalado próximo ao antigo Posto Tio Doca, às margens da BR-116, o bailão movimentava as noites e atraía moradores e viajantes.
Entre amigos e frequentadores ilustres, o ex-prefeito Toco (in memoriam) também era presença constante no Tio Sam. De bigode e a bordo de seu elegante MP Lafer, às vezes assumia a portaria até a chegada do porteiro oficial — um gesto que simbolizava a proximidade e a amizade cultivadas na casa.
Por dentro, o Tio Sam impressionava: teto iluminado por luzes em movimento e um paredão de caixas de som formavam uma estrutura moderna para a época, criando a atmosfera que transformou a casa em um dos pontos mais marcantes da vida noturna de Campina Grande do Sul e de toda a região.

Nessa recriação digital fotorrealista da fachada do antigo salão do Tio Sam, na esquina da Marginal Pedro Pasa com a Rua Jorge Bonn Filho, no Jardim Paulista, é possível ter uma ideia de como era a estrutura do prédio que marcou época na região.

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