À medida que o Natal se aproxima, Quatro Barras é tocada por uma força mágica, invisível aos olhos, mas palpável na alma: a mobilização de grupos de voluntários que, ano após ano, saem silenciosamente para semear alegria e renovar a esperança. Eles fazem muito mais que entregar pacotes; eles levam afeto genuíno, o conforto da escuta e a certeza calorosa de que nenhum morador será esquecido na época mais mágica do ano.
Em cada canto, histórias como as dos inspiradores Doutores Anjos do Amor e do grandioso Natal Encantado Quatro Barras provam o poder transformador da solidariedade – uma força que tem a capacidade única de aquecer e iluminar a vida não apenas de quem recebe, mas de forma profunda e inesquecível, também de quem se entrega a essa nobre missão.
Há cerca de 20 anos, o voluntário Roberto Carlos Conceição mantém viva uma tradição que nasceu ainda na infância, inspirada pela mãe. Quando pequeno, ele a acompanhava em apresentações do nascimento de Jesus realizadas em rádios e escolas, envolvendo dezenas de crianças. Com o passar dos anos, o trabalho cresceu e chegou a reunir centenas de participantes. Após o falecimento da mãe, Roberto decidiu que aquela história não poderia terminar ali.
“Quando vi o tamanho do carinho que as pessoas tinham por ela, percebi que não podia deixar aquilo morrer”, conta. Foi assim que ele começou, inicialmente sozinho, realizando campanhas de arrecadação e apresentações natalinas. Mais tarde, integrou o grupo Doutores da Alegria, experiência que despertou ainda mais o desejo de levar alegria a hospitais, asilos e comunidades.

Da necessidade de organização e identidade própria, surgiu o grupo Doutores Anjos do Amor, criado junto com outros voluntários. Hoje, o grupo reúne 26 integrantes e mantém ações contínuas durante o ano, com campanhas na Páscoa, no Dia das Crianças e no Natal — esta última considerada a mais especial.
“O Natal é diferente. A criança sonha com o brinquedo, com aquele presente específico. A gente vê isso nas cartinhas, nas histórias curtas, mas cheias de significado”, relata Roberto. Para alcançar quem mais precisa, o grupo atua em parceria com a Pastoral da Criança, que possui cadastro das famílias atendidas. Atualmente, cerca de 330 crianças são beneficiadas, número que pode chegar a 400, considerando irmãos fora da faixa etária.
As doações nem sempre chegam com antecedência. Muitas vezes, o impulso final vem nos últimos dias antes do Natal. “Sempre aparecem duas ou três bênçãos de última hora”, diz Roberto, que conta com o apoio fiel de parceiros e empresários que colaboram há anos com a iniciativa. “Eu não vou mudar o mundo, mas posso ser uma gota d’água no oceano”, resume.

Outra história que emociona é a do grupo Natal Encantado Quatro Barras, que nasceu em 2011, a partir de um gesto simples de Dayane Cordeiro e de sua mãe, Sandra Cordeiro. Na época, elas iam ao bairro Florestal entregar brinquedos e doces às crianças. O que era pequeno cresceu e se transformou em um grande movimento solidário na cidade.
“Acreditamos que quando a sociedade olha para as crianças, o futuro muda”, afirma Dayane. Para o grupo, o Natal é uma oportunidade de oferecer carinho, respeito e acolhimento, deixando marcas positivas que acompanham essas crianças por toda a vida.
A organização começa meses antes das entregas e envolve dezenas de voluntários. A divisão de tarefas é feita de forma colaborativa, e na semana que antecede o Natal, mutirões são realizados para montar kits com brinquedos, doces, panetones e cartões personalizados — tudo preparado com cuidado e afeto.
Em 2023, o grupo atendeu 1.200 famílias e, neste ano, a meta é alcançar 1.500 famílias, incluindo áreas rurais e bairros mais vulneráveis. “Começamos sempre pelas regiões mais esquecidas, onde o acesso é difícil”, explica Dayane.
As doações mais comuns são doces e guloseimas, mas o grupo destaca a importância das contribuições via Pix, que permitem uma organização mais eficiente e a compra de brinquedos novos. Neste ano, a maior necessidade é completar os kits infantis com pipoteca doce, além de ampliar o número de parceiros e empresas apoiadoras.
Entre as muitas histórias marcantes, uma em especial ficou na memória dos voluntários: durante uma carreata, mesmo com chuva, um motociclista pediu para que o Papai Noel aguardasse enquanto buscava a filha. Ao voltar, a menina recebeu o presente, tirou fotos e o pai, emocionado, agradeceu cada voluntário com um abraço. “A gente acredita que ninguém deve recolher dignidade do chão. Olhar nos olhos faz parte da nossa missão”, reforça Dayane.
Para quem participa, o sentimento é sempre o mesmo: emoção, gratidão e vontade de continuar. “Não é só entregar presente. É acolher, é estar presente”, definem os voluntários.







