Dados da Soblec (Sociedade Brasileira de Lentes de Contato) mostram que o número de brasileiros que utilizam lentes de contato dobrou entre 2024 e 2025, passando de 2 milhões para 4 milhões. Segundo Leôncio Queiroz Neto, oftalmologista e diretor executivo do Instituto Penido Burnier de Campinas, este aumento está relacionado à evolução das lentes, que se tornaram mais confortáveis, corrigem múltiplos problemas de refração e ajudam a controlar a progressão da miopia em crianças. No Brasil, o tipo de lente mais usado é a gelatinosa de silicone hidrogel, que oferece boa oxigenação.
Um levantamento realizado nos últimos 18 meses, com 280 pacientes jovens do hospital que utilizam lentes de contato, revelou que 20% apresentaram alterações na visão, com maior predominância nos meses quentes. Crianças que usam lentes para controle da miopia foram excluídas da análise, pois essas lentes são de descarte diário, o que reduz significativamente o risco de contaminação.
Entre os jovens analisados, 45% enfrentaram complicações devido ao uso inadequado, totalizando 25 dos 56 pacientes com falhas. Além disso, 35,5% (20 pacientes) não higienizaram as lentes corretamente, e outros 20% (11 pacientes) falharam no armazenamento adequado.
O especialista explica que o limite máximo diário de uso de lentes de contato é de 12 horas, incluindo as de uso noturno. Contudo, ele afirma que é comum ouvir relatos de pessoas que dormem com lentes ou as utilizam para tomar banho, entrar no mar ou piscinas. “Quando dormimos, a produção de lágrima diminui, a córnea não recebe oxigênio suficiente devido à lente apoiada, e isso eleva o risco de opacificação e úlcera na córnea, responsável por 60% da nossa refração”, explica.
Queiroz Neto alerta que entrar no mar, piscina ou tomar banho com lentes de contato aumenta em 10 vezes o risco de contrair acanthamoeba, um micro-organismo resistente presente na água e a principal causa de ceratite, uma inflamação da córnea de difícil tratamento.
Nas falhas relatadas pelos pacientes, destacam-se comportamentos como insistir no uso das lentes mesmo com desconforto ocular; continuar utilizando-as após o vencimento, apesar de dores; e substituir a solução higienizadora por soro fisiológico durante o enxágue das caixas de lentes. Sobre a manutenção, 25% dos entrevistados afirmaram não trocar a caixa de lentes a cada quatro meses e 30% armazenavam lentes e estojos no banheiro, local inadequado devido à alta umidade, que favorece a proliferação de fungos e bactérias.
O especialista lista 12 cuidados essenciais para evitar problemas na visão causados pelas lentes de contato:
1. Lavar as mãos cuidadosamente antes de manusear as lentes;
2. Utilizar soluções higienizadoras específicas tanto para as lentes quanto para o estojo;
3. Friccionar as lentes durante a limpeza para remover resíduos acumulados;
4. Não utilizar soro fisiológico ou água na higienização;
5. Retirar as lentes antes de remover maquiagem ou aplicar spray no cabelo;
6. Respeitar rigorosamente o prazo de validade das lentes;
7. Guardar o estojo em ambiente limpo e seco;
8. Evitar dormir com as lentes, mesmo aquelas autorizadas para uso noturno;
9. Interromper o uso ao sentir qualquer desconforto ocular e procurar atendimento oftalmológico;
10. Retirar as lentes em viagens aéreas com duração superior a três horas;
11. Não utilizar as lentes para entrar no mar ou piscina.
Para quem considera esses cuidados excessivamente trabalhosos, Queiroz Neto destaca opções como cirurgias refrativas. “De acordo com estudo da Cochrane, a cirurgia para corrigir miopia, hipermetropia ou astigmatismo apresenta risco de infecção de apenas 0,02% – muito inferior aos altos índices de contaminação por lentes”, afirma. Outra alternativa, indicada para quem tem alta miopia acima de 6 dioptrias, astigmatismo de até 4 ou córnea fina, é o implante de microlentes atrás da íris. “Essa solução elimina o erro de refração mantendo o olho completamente íntegro”, conclui o oftalmologista.







