O Corpo de Bombeiros Militar do Paraná (CBMPR) vem ampliando a capacitação de seus profissionais para lidar com ocorrências envolvendo pessoas autistas. A iniciativa busca oferecer um atendimento técnico, seguro e humanizado, integrando orientações operacionais, formação continuada e ações de conscientização dentro da corporação.
O Dia Mundial de Conscientização sobre o Autismo, celebrado em 2 de abril, reforça a importância da inclusão, do combate ao preconceito e da garantia de direitos às pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA). A data, instituída pela Organização das Nações Unidas (ONU), ressalta a necessidade de preparar profissionais que atuam diretamente com esse público, como os bombeiros, que frequentemente enfrentam emergências envolvendo pessoas neurodivergentes.
O esforço do CBMPR nesse campo começou em 2022, com a elaboração de uma Nota de Instrução (NI) voltada para procedimentos em ocorrências que envolvam pessoas com TEA. Este documento estabelece diretrizes para abordagem, comunicação e condução, levando em conta as particularidades sensoriais e comportamentais do espectro autista. Além de padronizar o atendimento em âmbito estadual, a normativa também serviu como referência para outras instituições do país, ampliando o alcance das boas práticas desenvolvidas no Paraná.
Segundo o subcomandante-geral do CBMPR, coronel Jonas Emmanuel Benghi Pinto, responsável pela criação da NI, o treinamento específico é fundamental para reduzir riscos durante o atendimento. “Uma das principais questões é que a vítima autista percebe o mundo de uma forma bem específica. Estímulos que para nós bombeiros são bem assimilados, como som, luz e toque no corpo, para uma pessoa autista podem ser algo bastante desconfortável”, explicou o coronel, que é pai de uma menina autista. Ele também destacou o papel dos procedimentos na melhora da dinâmica das ocorrências. “Basicamente, os procedimentos tendem a tranquilizar o ambiente geral do atendimento, acalmando e confortando a vítima autista, bem como entendendo e acolhendo os familiares e responsáveis”, comentou.
Em relação à aplicação prática das orientações, o coronel citou ações específicas, como desligar sinais luminosos e reduzir o volume dos rádios durante uma colisão de veículos, a fim de minimizar estímulos sensoriais que possam causar desconforto à vítima. Essa abordagem visa criar um ambiente mais calmo e estável.
Em 2025, o CBMPR também lançou um curso no formato de Ensino a Distância (EAD), ampliando o acesso à capacitação e consolidando a formação continuada sobre o tema. O curso aborda protocolos operacionais baseados em boas práticas internacionais e inclui orientações para diferentes tipos de emergências envolvendo o público autista.
O major Murilo Sinque de Paula, responsável pela elaboração do curso e também pai de uma criança com TEA, explicou que o conteúdo foi projetado para atender a profissionais de todas as forças de segurança, com módulos específicos para cada área de atuação. Isso permite a adaptação das orientações às particularidades de diferentes situações operacionais. Ele ressaltou ainda que a iniciativa atende às diretrizes do Código Estadual da Pessoa Autista do Paraná (Lei nº 21.964), que exige capacitação de agentes públicos para atendimento adequado a pessoas com TEA.
Além do CBMPR, a Escola de Governo do Paraná trabalha na expansão do conteúdo para outros servidores públicos, incluindo áreas como saúde e educação. Para o major, o preparo técnico é essencial para melhorar a segurança e eficiência das operações. “A capacitação auxilia o bombeiro na interpretação do comportamento da vítima, permitindo reconhecer sinais específicos, modular o ambiente e promover a desescalada da crise, protegendo simultaneamente a vítima, a equipe e terceiros”, disse.
Até o momento, cerca de 95 bombeiros, entre militares e membros de brigadas comunitárias, já participaram dessa formação. Mais de mil profissionais de outras corporações e estados também fizeram o curso. Embora o treinamento seja opcional, os resultados observados pelos participantes têm demonstrado melhorias na abordagem e segurança das intervenções.
O major Sinque reforçou que a conscientização deve ser contínua: “O profissional de emergência frequentemente se depara com indivíduos em estado de elevada ativação emocional. É imprescindível que o interventor mantenha controle emocional, leitura situacional qualificada e postura técnica para conduzir a ocorrência de forma segura e humanizada”. Com essas iniciativas, o CBMPR reafirma o compromisso com um atendimento inclusivo e alinhado aos princípios do Dia Mundial de Conscientização sobre o Autismo: promover informação, respeito e inclusão em todos os espaços da sociedade.









