Caminhoneiros de diversas regiões do Brasil ameaçam iniciar uma greve nos próximos dias, em protesto contra o aumento do custo do diesel e críticas às ações governamentais para mitigar o impacto. A categoria diz que as medidas anunciadas pelo governo, como o pacote de renúncia fiscal para reduzir o preço do combustível em até R$ 0,32 por litro, foram anuladas pelo aumento subsequente de R$ 0,38 no diesel, implementado pela Petrobras em algumas regiões.
De acordo com Wallace Landim, conhecido como Chorão, presidente da Associação Brasileira dos Condutores de Veículos Automotores (Abrava), a insatisfação abrange motoristas autônomos e contratados por empresas. “O que foi feito até agora não serviu para nada. O governo já sabia que a Petrobras ia aumentar o preço do diesel depois. Então, na prática, não gerou redução nenhuma. Precisamos ter alguma garantia”, afirmou Landim.
O governo federal está em diálogo com representantes do setor, incluindo a Secretaria-Geral, o Ministério dos Transportes e a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), enquanto monitora possíveis mobilizações. Segundo Landim, lideranças regionais de estados como São Paulo, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Distrito Federal e Goiás já estão articulando uma data para o início da paralisação, buscando ampliar a adesão nacional. “A categoria deliberou para cruzar os braços. Não tem condições de manter o trabalho. Entendemos os fatores externos, mas somos dependentes de 20% a 30% de importação, e isso torna a situação insustentável”, destacou o líder da Abrava.
No dia 12 de março, para conter a escalada dos preços, o governo anunciou a zeragem das alíquotas de PIS e Cofins sobre o diesel, além de medidas de subvenção para baratear o preço em até R$ 0,64 por litro. No entanto, um dia depois, a Petrobras reajustou o preço em R$ 0,38 por litro no diesel A, justificando o aumento pela alta internacional do petróleo, intensificada pela guerra no Oriente Médio.
Entre as soluções defendidas pelos caminhoneiros estão o cumprimento da lei que fixa o piso mínimo para o frete e a isenção de pedágio para veículos vazios. “Estamos lutando pela lei, que não tem cumprimento na ponta”, disse Chorão, referindo-se à Lei 13.703 de 2018, que criou a política nacional de pisos mínimos para o transporte de cargas. Ele também destacou que a falta de fiscalização da ANTT permite que transportadores aceitem valores abaixo do piso, prejudicando a categoria. “A ANTT já tem meios de fazer o travamento eletrônico da planilha de custo mínimo”, acrescentou.
A Abrava representa cerca de 35 mil caminhoneiros, enquanto o setor como um todo conta com aproximadamente 790 mil motoristas autônomos e 750 mil celetistas. Segundo Landim, apesar de tentativas recentes da Casa Civil de discutir a situação, a categoria continua cética quanto à efetividade das negociações. “A Casa Civil ligou ontem. Estamos cansados de nos sentarmos com o governo. Pode até ter mais diálogo hoje, mas as dificuldades são as mesmas e nada se resolve”, criticou o líder da categoria.
Além disso, os governos estaduais rejeitaram o pedido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para reduzir o ICMS sobre o diesel, justificando a negativa pelos prejuízos acumulados após cortes impostos na gestão anterior de Jair Bolsonaro (PL). Em nota divulgada nesta terça-feira (17), representantes estaduais acusaram distribuidoras e postos de não repassarem reduções de preços ao consumidor.
Diante do atual cenário, caminhoneiros autônomos, que arcam diretamente com os custos de manutenção, pedágio e combustível, consideram a paralisação uma das poucas alternativas para pressionar por mudanças. “Se não houver medidas que garantam previsibilidade de custos, a paralisação é uma das poucas formas que temos para pressionar por mudança”, concluiu Landim.









