Depois do parto, quem cuida da mãe?
O bebê nasce, as visitas chegam, as fotos circulam. Nas primeiras semanas, quase todas as perguntas giram em torno da criança: se está mamando, se dorme bem, com quem se parece. Poucas pessoas perguntam como está a mãe. É nesse intervalo, entre o parto e a volta a uma rotina possível, que acontece o puerpério.
O puerpério é o período de recuperação do corpo e da mente depois do parto. Do ponto de vista médico, costuma ser contado nas primeiras seis semanas. Para muitas mulheres, porém, os efeitos emocionais dessa fase duram bem mais. Há mudanças no corpo, quedas hormonais, noites sem dormir e a dificuldade de amamentar, que podem vir junto de tristeza, insegurança e a sensação de não se reconhecer.
O que se espera e o que não se diz
Para entender como essa fase é vivida na prática, estudantes de Publicidade e Propaganda da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) ouviram mulheres que passaram pelo puerpério. Os relatos revelaram três camadas. A primeira é a que todo mundo já espera: cansaço, privação de sono, o corpo mudando, as primeiras dificuldades com a amamentação. A segunda é sentida, mas pouco falada: a queda de humor, a culpa por não conseguir amamentar ou por não estar feliz o tempo todo, a autoestima abalada.
A terceira camada é a que quase ninguém comenta. Mais de uma entrevistada descreveu a pressão para “ser forte” e não pedir ajuda. “Nasci e cresci numa cultura em que a mulher deve ser forte”, contou uma delas. Outra usou a expressão “posar de forte” para explicar como escondia o que sentia. Também apareceram relatos de puerpério vivido sem o pai da criança por perto e de falhas no atendimento de saúde.
Mesmo entre as mulheres que se prepararam para a chegada do bebê, a sensação foi de que faltou olhar para elas. “O foco era mais no bebê e na gravidez”, resumiu uma das entrevistadas sobre as orientações que recebeu.
Tristeza passageira ou sinal de alerta
Nos primeiros dias depois do parto, é comum que a mãe sinta tristeza, medo, irritabilidade e choro fácil. É o chamado baby blues, que costuma aparecer na primeira semana e passar em até 30 dias. Quando esses sentimentos se prolongam ou se intensificam, pode ser um sinal de depressão pós-parto, que precisa de acompanhamento profissional.
O quadro é mais comum do que se imagina. A pesquisa Nascer no Brasil, da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz, acompanhou cerca de 23,9 mil mulheres e identificou sintomas de provável depressão em 26,3% delas entre 6 e 18 meses depois do parto. É uma em cada quatro mães.
Rede de apoio não é visita
Outro ponto que se repetiu nas entrevistas foi a rede de apoio. Boa parte das mulheres tinha pessoas por perto, mas nem sempre o apoio de que precisava. “Rede de apoio nunca é somente ter alguém por perto, é ter alguém que realmente entenda o que você está vivendo”, disse uma das mães ouvidas. Para as estudantes, isso mostra que o problema muitas vezes não é a falta de gente, mas a falta de preparo de quem está ao lado.
O peso da romantização também apareceu. A ideia de que o amor materno é imediato e instintivo vem sendo questionada há décadas. A filósofa francesa Elisabeth Badinter, no livro Um amor conquistado: o mito do amor materno, defende que esse amor é construído, e não um dom natural presente em todas as mulheres. Quando a experiência real não corresponde à imagem idealizada, a culpa costuma ocupar o espaço.
“Ainda eu mesma”
Foi a partir dessas conversas que nasceu o projeto “Ainda eu mesma”, desenvolvido por alunas de Publicidade e Propaganda da PUCPR. A proposta é dar visibilidade ao puerpério, acolher as mulheres que estão vivendo essa fase e preparar as gestantes que ainda vão passar por ela, ajudando cada uma a reencontrar a própria identidade depois do bebê. O grupo está produzindo uma minissérie sobre o tema, com depoimentos de mães e a participação de uma psicóloga, e está organizando eventos para gestantes e mães, com a participação de profissionais. No Instagram @aindaeumesma, o projeto publica conteúdos que informam e conscientizam sobre o puerpério.
Onde buscar ajuda
Tristeza que não passa, perda de interesse pelas coisas, angústia constante ou dificuldade de cuidar de si e do bebê são sinais de que a mãe precisa de apoio profissional. O primeiro passo pode ser procurar a unidade de saúde mais próxima. Em situações de sofrimento intenso, o Centro de Valorização da Vida (CVV) atende 24 horas, de graça, pelo telefone 188.
Texto produzido por Hanna Tatarin, Heloísa Siqueira, Julia Debiasi, Julia Janzen, Luiza Gabriela, Luiza Percebon e Maria Fernanda Chávez, alunas de Publicidade e Propaganda da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), integrantes do projeto “Ainda eu mesma”, desenvolvido na disciplina de Projeto IV. Acompanhe o projeto no Instagram @aindaeumesma.


