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Aplicativo ajuda na identificação e avaliação de dor em animais de diversas espécies

A dor é a principal causa de sofrimento animal. Contudo, a incapacidade dos pets de se comunicarem com humanos torna difícil a identificação de sua origem e, por consequência, o tratamento. No câmpus da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu, um grupo de pesquisadores trabalha há mais de uma década para desenvolver métodos que permitam identificar, avaliar e tratar a dor em animais. Um dos resultados dessas pesquisas é o aplicativo VetPain, que auxilia na avaliação da dor tanto em animais de estimação (cães, gatos e coelhos) quanto em animais de produção (bovinos, equinos, suínos e ovinos). Segundo Stelio Pacca Loureiro Luna, anestesiologista e professor do Departamento de Cirurgia Veterinária da Unesp, a ideia é popularizar o conhecimento sobre a dor em diferentes espécies.

O VetPain, que está disponível para download, pode ser usado por especialistas e pelo público geral. “O tutor vai estar apto para avaliar seu animal, calcular a pontuação e decidir se existe a necessidade de tratamento com analgésico ou se o caso exige uma visita ao veterinário”, explica Luna. O aplicativo oferece vídeos que guiam os usuários na identificação de comportamentos e reações que indicam dor. Após aprender sobre os comportamentos específicos de cada espécie, o usuário realiza testes que avaliam sua aptidão para a análise. Num terceiro momento, o aplicativo apresenta as escalas de dor específicas para cada animal.

Essas escalas, frutos das pesquisas realizadas pela equipe de Luna, são parte essencial do avanço na avaliação da dor animal. Desde 2013, o grupo desenvolve escalas, como a para gatos, intitulada Unesp-Botucatu, que atualmente é a mais citada na literatura acadêmica e validada estatisticamente. O aplicativo inclui outras escalas do mesmo grupo, como as voltadas para bovinos e ovinos. Esses sistemas surgiram de projetos de doutorado e pós-doutorado, que acumularam cerca de 700 horas de vídeos com observações detalhadas do comportamento normal e do comportamento em sofrimento dos animais.

Luna relata também o caso de um estudo realizado pela Universidade de Newcastle, no Reino Unido, que testou dois grupos de pessoas com experiência com roedores para identificar sinais de dor. O grupo informado sobre os indicadores específicos de dor obteve 80% de acertos, enquanto o outro, que não recebeu informações detalhadas, acertou apenas 50%. Segundo ele, essa pesquisa demonstra que “a experiência não garante uma boa avaliação. O fato de saber o que observar, que é o que as escalas de dor promovem, vai possibilitar melhores resultados”.

A evolução na área permitiu avanços como o uso de inteligência artificial (IA) para avaliação da dor. O professor Luna explica que algoritmos conseguem atingir até 80% de precisão ao analisar sinais faciais de dor em animais, superando a média humana, que é de 70%. Em um dos estudos do grupo, foram analisadas expressões faciais de gatas em pós-operatório, medindo vetores de movimento e calculando índices de dor. No entanto, o pesquisador ressalta que os avanços com IA dependem da ampliação dos bancos de dados imagéticos. “Como são os dados que alimentam o algoritmo, quanto mais dados, melhor fica. Senão começa a ter erros”, destaca Luna.

A aplicação das escalas de dor e estudos sobre o bem-estar animal também demonstram ganhos econômicos para produtores rurais. Um exemplo é a avaliação de suínos castrados com anestesia local, que apresentaram maior ganho de peso em comparação aos castrados sem anestesia, segundo estudos do grupo. Luna aponta que, mesmo considerando o custo da anestesia, a prática é vantajosa financeiramente para os produtores. Além disso, ele destaca os impactos éticos, enfatizando que “bem-estar não é apenas dor. Existem as famosas cinco liberdades que preconizam que o animal esteja livre de fome, sede, dor, doença e do medo”.

Desde o início de sua carreira acadêmica, na década de 1980, Luna testemunhou mudanças significativas na forma como a medicina veterinária aborda a dor animal. Ele conta que, na época, acreditava-se que o uso de analgésicos impedia a dor fisiológica necessária para evitar que animais se movimentassem após cirurgias, o que colocaria em risco os procedimentos realizados. Essa visão mudou significativamente a partir dos anos 1990. Um dos trabalhos pioneiros conduzidos por Luna demonstrou que cães submetidos a cirurgia ortopédica e tratados com anti-inflamatórios apresentaram melhor recuperação, com menos dor e edemas, consolidando mais rapidamente as fraturas ósseas.

Ainda que a produção rural tenha evoluído em vários aspectos, Luna avalia que há desafios em algumas áreas, como na criação de suínos e aves em ambientes que limitam seus movimentos e comportamentos naturais. O pesquisador também ressalta a importância de órgãos como o Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal (Concea) na regulamentação do uso ético de animais em pesquisas e no ensino, promovendo avanços no bem-estar animal.

Por fim, Luna destaca que estudar e tratar a dor animal é tanto uma questão ética quanto prática, reafirmando que os ganhos em saúde, bem-estar e produtividade compensam os investimentos nessas práticas.

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